Capítulo 1 — A Queda e o Chamado de Outro Mundo
Cena 1 — A Calmaria Antes da Correnteza
A luz da manhã paulistana não entrava; ela invadia, dourando a poeira em suspensão como se o próprio ar tivesse peso e cor. O cheiro era o da infância de Miguel: café forte subindo em espirais e pão de queijo queimando levemente a ponta dos dedos.
Na mesa, o caos tinha sua própria harmonia. Migalhas de pão formavam mapas acidentais na toalha xadrez. Um copo de suco de laranja, perigosamente perto da borda, suava frio.
— Pai, o sol já tá queimando lá fora! — João chutava o ar debaixo da mesa, o ritmo frenético de seus pés fazendo os talheres vibrarem. — Se a gente demorar mais, os bois vão ter ido embora.
Gustavo riu, aquele som grave que parecia vibrar no peito de quem estava perto. Ele estendeu a mão e bagunçou o cabelo do caçula. — Calma, campeão. Ninguém viaja de tanque vazio. Nem o carro, nem você.
Ele trocou um olhar com Maria Creusa por cima da barreira de pratos sujos. Um olhar rápido, cúmplice, daqueles que dispensam palavras. Ela apenas sorriu, limpando um canto da boca de Maria, que ignorava o mundo, absorta em fazer uma trança na orelha desfiada da coelha Violeta.
Miguel estava recostado no batente da porta, o mapa rodoviário dobrado em suas mãos. Ele não sentou. Sentia-se um sentinela, guardando aquele instante.
Seus olhos traçaram o contorno da cena como se precisasse decorá-la para uma prova. O brilho no relógio do pai. O jeito que a
mãe soprava o café. O remendo roxo na pelúcia da irmã.
Por que isso parece tão… fino? pensou Miguel. A sensação veio do nada — uma agulha gelada na base da espinha. Era como olhar para uma bolha de sabão perfeita, sabendo que a tensão superficial estava no limite. A luz parecia densa demais, o riso alto demais.
Ele respirou fundo, tentando expulsar o arrepio. É só ansiedade de viagem. Para com isso.
— E aí, navegador? — A voz de Gustavo o puxou de volta. — Conferiu a rota? Ou vamos ter que confiar na minha intuição lendária e acabar no litoral?
Miguel forçou um sorriso, desencostando da porta. O papel do mapa estalou em seus dedos. — Está tudo traçado, pai. Tanque cheio, pneus calibrados. Sem surpresas.
— Ótimo — Gustavo bateu uma palma, um som seco que encerrou o café da manhã como um martelo de juiz. — Porque sua mãe quase tentou despachar a samambaia na mala.
— Alguém precisa ter senso estético nessa família — retrucou Maria Creusa, levantando-se. — E alguém precisa lembrar do protetor solar.
O movimento foi súbito. Cadeiras arrastaram no piso, vozes se misturaram, a coelha Violeta foi prensada num abraço. A cozinha, antes um quadro estático de calor, se desfez em ação.
Miguel olhou uma última vez para a mesa vazia, para as xícaras com restos de café. O cheiro de conforto ainda estava lá, mas eles já estavam partindo. Ele guardou o mapa no bolso, sentindo o peso do papel contra a perna.
— Vamos — sussurrou para si mesmo, ignorando o frio que insistia em permanecer em seus ossos. — A estrada espera.


