A Forja do Autor

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Série: O Mundo de Valtoria

O Mundo de Valtoria — O Escolhido da Nousis

Volume I

Miguel, um jovem de Terranox, é arrancado de sua família durante um acidente e desperta em Valtoria, um mundo atravessado pela Nousis. Enquanto busca compreender o novo mundo e encontrar um caminho de volta, descobre que sua presença está ligada a uma guerra antiga e a um poder capaz de salvar — ou destruir — aquilo que passou a amar.

ISBN979-8-276-89965-7
Edição2ª edição
Páginas240
Volume1

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Leia as cenas disponibilizadas pelo autor.

Ver sumário completo

Capítulo 1 — A Queda e o Chamado de Outro Mundo

  1. Cena 1 — A Calmaria Antes da Correnteza
  2. Cena 2 — O Grito do Metal e o Silêncio da Pedra
  3. Cena 3 — O Lamento da Carne e o Sussurro da Terra

Capítulo 2 — A Aldeia do Lago Azul

  1. Cena 4 — O Voo do Guardião e o Aconchego do Lar
  2. Cena 5 — Sussurros na Escuridão

Capítulo 3 — O Juramento e a Primeira Sombra

  1. Cena 6 — O Batismo do Esquecimento
  2. Cena 7 — O Juramento do Lago Azul
  3. Cena 8 — O Conclave Silencioso
  4. Cena 9 — A Convocação dos Discípulos

Capítulo 4 — O Despertar do Portador da Luz

  1. Cena 10 — O Eco da Montanha e a Voz da Alma Conteúdo protegido
  2. Cena 11 — A Convocação da Árvore Milenar Conteúdo protegido
  3. Cena 12 — O Eco de Terranox Conteúdo protegido

Capítulo 5 — A Forja dos Discípulos

  1. Cena 13 — O Caminho do Sylfarion Conteúdo protegido
  2. Cena 14 — A Correnteza de Lunaris Conteúdo protegido
  3. Cena 15 — O Cerco das Sombras Conteúdo protegido
  4. Cena 16 — O Sopro e a Chama Conteúdo protegido

Capítulo 6 — A Sombra Interior

  1. Cena 17 — A Invasão do Santuário Conteúdo protegido

Capítulo 7 — A Caçada no Norte

  1. Cena 18 — A Longa Estrada de Cinzas e Sussurros Conteúdo protegido
  2. Cena 19 — O Pacto da Vingança Conteúdo protegido

Capítulo 8 — Uma Aliança Sombria

  1. Cena 20 — A Anomalia de Prata Conteúdo protegido
  2. Cena 21 — O Conselho de Guerra e os Arquitetos da Sombra Conteúdo protegido

Capítulo 9 — O Rastro do Chacal

  1. Cena 22 — A Revelação do Chacal Conteúdo protegido

Capítulo 10 — Guerra Total

  1. Cena 23 — A Peste e a Promessa Conteúdo protegido
  2. Cena 24 — Infiltração, Reconhecimento e Confronto em Syntheris Conteúdo protegido
  3. Cena 25 — Syntheris, o Coração da Corrupção Conteúdo protegido
  4. Cena 26 — Fogo, Sacrifício e Retorno — Batalha, Amuleto e Fuga Conteúdo protegido

Capítulo 11 — Consequências e Conspirações

  1. Cena 27 — A Fúria de Therion Conteúdo protegido
  2. Cena 28 — O Luto e o Legado Conteúdo protegido
  3. Cena 29 — O Dilema da Caçadora Conteúdo protegido
  4. Cena 30 — O Mapa da Guerra Conteúdo protegido
  5. Cena 31 — A Legião da Sombra Conteúdo protegido
  6. Cena 32 — As Três Frentes Conteúdo protegido

Capítulo 12 — A Canção de Cristal

  1. Cena 33 — O Enigma das Cavernas de Cristal Conteúdo protegido
  2. Cena 34 — A Transmissão da Esperança Conteúdo protegido

Capítulo 13 — A Marcha da Aniquilação

  1. Cena 35 — O Atalho do Covarde Conteúdo protegido
  2. Cena 36 — A Queda de Aethel Conteúdo protegido

Capítulo 14 — O Coração da Montanha

  1. Cena 37 — O Templo Submerso Conteúdo protegido
  2. Cena 38 — A Batalha pelo Coração de Valtoria Conteúdo protegido
  3. Cena 39 — O Preço da Luz Conteúdo protegido

Epílogo

  1. O Legado e a Promessa do Amanhã Conteúdo protegido

Capítulo 1 — A Queda e o Chamado de Outro Mundo

Cena 1 — A Calmaria Antes da Correnteza

A luz da manhã paulistana não entrava; ela invadia, dourando a poeira em suspensão como se o próprio ar tivesse peso e cor. O cheiro era o da infância de Miguel: café forte subindo em espirais e pão de queijo queimando levemente a ponta dos dedos.

Na mesa, o caos tinha sua própria harmonia. Migalhas de pão formavam mapas acidentais na toalha xadrez. Um copo de suco de laranja, perigosamente perto da borda, suava frio.

— Pai, o sol já tá queimando lá fora! — João chutava o ar debaixo da mesa, o ritmo frenético de seus pés fazendo os talheres vibrarem. — Se a gente demorar mais, os bois vão ter ido embora.

Gustavo riu, aquele som grave que parecia vibrar no peito de quem estava perto. Ele estendeu a mão e bagunçou o cabelo do caçula. — Calma, campeão. Ninguém viaja de tanque vazio. Nem o carro, nem você.

Ele trocou um olhar com Maria Creusa por cima da barreira de pratos sujos. Um olhar rápido, cúmplice, daqueles que dispensam palavras. Ela apenas sorriu, limpando um canto da boca de Maria, que ignorava o mundo, absorta em fazer uma trança na orelha desfiada da coelha Violeta.

Miguel estava recostado no batente da porta, o mapa rodoviário dobrado em suas mãos. Ele não sentou. Sentia-se um sentinela, guardando aquele instante.

Seus olhos traçaram o contorno da cena como se precisasse decorá-la para uma prova. O brilho no relógio do pai. O jeito que a

mãe soprava o café. O remendo roxo na pelúcia da irmã.

Por que isso parece tão… fino? pensou Miguel. A sensação veio do nada — uma agulha gelada na base da espinha. Era como olhar para uma bolha de sabão perfeita, sabendo que a tensão superficial estava no limite. A luz parecia densa demais, o riso alto demais.

Ele respirou fundo, tentando expulsar o arrepio. É só ansiedade de viagem. Para com isso.

— E aí, navegador? — A voz de Gustavo o puxou de volta. — Conferiu a rota? Ou vamos ter que confiar na minha intuição lendária e acabar no litoral?

Miguel forçou um sorriso, desencostando da porta. O papel do mapa estalou em seus dedos. — Está tudo traçado, pai. Tanque cheio, pneus calibrados. Sem surpresas.

— Ótimo — Gustavo bateu uma palma, um som seco que encerrou o café da manhã como um martelo de juiz. — Porque sua mãe quase tentou despachar a samambaia na mala.

— Alguém precisa ter senso estético nessa família — retrucou Maria Creusa, levantando-se. — E alguém precisa lembrar do protetor solar.

O movimento foi súbito. Cadeiras arrastaram no piso, vozes se misturaram, a coelha Violeta foi prensada num abraço. A cozinha, antes um quadro estático de calor, se desfez em ação.

Miguel olhou uma última vez para a mesa vazia, para as xícaras com restos de café. O cheiro de conforto ainda estava lá, mas eles já estavam partindo. Ele guardou o mapa no bolso, sentindo o peso do papel contra a perna.

— Vamos — sussurrou para si mesmo, ignorando o frio que insistia em permanecer em seus ossos. — A estrada espera.

Capítulo 1 — A Queda e o Chamado de Outro Mundo

Cena 2 — O Grito do Metal e o Silêncio da Pedra

A estrada engolia a cidade, transformando prédios em borrões verdes de mata atlântica. O motor zumbia, uma canção de ninar mecânica que mantinha a ilusão de segurança.

— Ali! Outro boi! — João apontava para a pastagem, a inocência de seu dedo indicador traçando linhas no vidro. Maria dormia, Violeta esmagada contra o peito, alheia ao destino.

Miguel, no banco do carona, sentiu aquele frio na espinha retornar. A bolha. Estava esticada demais.

De repente, o dia morreu.

Não houve nuvens de aviso. O céu desabou em um peso azul-chumbo, sólido como uma parede. A primeira gota não molhou o para-brisa; ela estalou como um tiro. Depois, o dilúvio. O mundo lá fora foi apagado por uma cortina de água violenta, antinatural.

— Pai? — A voz de Miguel saiu tensa.

O volante tremia nas mãos de Gustavo. Os limpadores eram inúteis contra aquela fúria. O asfalto, antes firme, virou sabão. — Segurem-se! — O grito do pai não foi de comando, foi de medo. O som rasgado de um homem que sabe que perdeu.

O carro deslizou. A física assumiu o controle. O mundo girou. Verde, cinza, céu, asfalto. O tempo quebrou.

Estrondo. Metal gritando contra metal. O som de ossos e estrutura cedendo. A gravidade investiu contra o peito de Miguel. O cinto de segurança travou, cortando sua respiração, uma abraço brutal de salvação—

Estalo.

O tecido cedeu. A proteção falhou. Miguel foi ejetado. O mundo virou um caleidoscópio de dor e vidro. Ele não voou; foi cuspido.

O impacto contra a lama foi seco, roubando todo o ar de seus pulmões. Escuridão. Zumbido. Gosto de cobre na boca.

Miguel abriu os olhos. O mundo estava de lado. A chuva caía fria, lavando o sangue que escorria de sua testa. Ele tentou se levantar. O corpo era um peso morto, ancorado na terra. — Mãe… — O sussurro saiu com gosto de terra.

A poucos metros, o carro. Uma carcaça fumegante, rodas girando inutilmente para o céu cinza. O teto estava esmagado. Pelos vidros estilhaçados, ele viu. O braço do pai, inerte. O vestido da mãe, imóvel. O silêncio no banco de trás era mais alto que a tempestade.

— João… Maria… — Ele arranhou a lama, as unhas se enchendo de terra preta. Precisava chegar lá. Precisava cobri-los.

Mas algo o puxou.

Não era o vento. Não era a água. Começou nos pés, um formigamento elétrico, uma vibração que subia pelos ossos, fria e autoritária. Uma correnteza invisível agarrou seus tornozelos.

Atrás dele, a entrada de uma caverna pulsava. Não era apenas escuridão; era uma boca inalando. O som não era de vento, mas de uma frequência baixa que fazia seus dentes doerem.

Miguel cravou os dedos na lama. — Não! — ele gritou, ou pensou gritar. — Eles estão ali! Eu não posso…

A força aumentou. Inexorável. Desumana. Ele estava sendo arrastado para longe dos destroços, para longe dos corpos que deveria proteger. Ele lutou. Chutou o ar. Mas a lama cedeu.

Seu último olhar foi para o carro. Para a coelha de pelúcia, Violeta, caída na estrada molhada, o remendo roxo manchado de óleo. Eu falhei.

A escuridão da caverna o engoliu. O frio tornou-se absoluto. O grito do metal ficou para trás, substituído pelo zumbido de um mundo que o reclamava para si. ⇴

Capítulo 1 — A Queda e o Chamado de Outro Mundo

Cena 3 — O Lamento da Carne e o Sussurro da Terra

O universo o vomitou. Não houve pouso suave. A gravidade do lugar agarrou Miguel e o esmagou contra o solo com uma violência que parecia pessoal. O ar foi expulso de seus pulmões em um grito rouco, quebrado pelo estalo úmido de costelas cedendo.

Ele rolou na terra, o gosto de cobre do acidente ainda na boca, misturando-se agora com algo doce e enjoativo, como néctar apodrecido.

Dor. Era a única verdade. Uma lança de fogo em seu lado direito. Ele tentou abrir os olhos, mas a luz o agrediu. Não era a luz branca do hospital, nem o cinza da tempestade. Era uma luz dourada, espessa, quase líquida, que parecia pesar sobre a pele.

— Mãe… — ele chiou, os dedos arranhando o chão.

Mas o chão respondeu.

A grama sob seus dedos não era fria e inerte. Ela estremeceu. Pequenos filamentos se enrolaram em seus dedos, pulsando em um

ritmo lento, biológico. Miguel recolheu a mão, horrorizado, o coração batendo contra as costelas quebradas como um pássaro preso.

Ele forçou os olhos a focarem. O céu estava errado. Errado de uma maneira que fazia seu estômago revirar. Um azul profundo, violento, cortado por dois sóis que não queimavam, apenas brilhavam com uma indiferença fria. E, pálidas no horizonte, três luas o observavam como olhos de catarata.

Eu morri. É isso. O inferno é um jardim.

Então, a voz veio. Não pelos ouvidos, mas brotando no centro de seu crânio, com cheiro de lavanda e medo.

“…muito sangue… frágil… o que eu faço?… calma, Zarah, respira…”

Miguel levou as mãos à cabeça, gemendo. A intrusão era física, uma pressão atrás dos olhos. — Sai… sai da minha cabeça…

A voz mental mudou, tornando-se um sussurro projetado, trêmulo, mas focado. “Não tenha medo. A dor vai passar. Respire.”

O arbusto à sua frente se agitou. Miguel tentou recuar, arrastando as pernas, mas a dor o paralisou. Da folhagem prateada, emergiu

não um monstro, mas uma garota.

Ela tinha a pele dourada como o sol daquele lugar e olhos de um azul tão claro que pareciam cegos. Ela caminhava com um cuidado reverente, como se pisasse em vidro. Ao redor dela, criaturas que desafiavam a lógica — corpos de ovelha, focinhos de cão — a seguiam, emitindo sons baixos de preocupação.

— Você está… quebrado — disse ela. A voz falada era diferente da voz mental — era som, vibração, real.

Miguel tentou falar, perguntar sobre o carro, sobre João e Maria, mas apenas tossiu sangue.

A garota, Zarah, ajoelhou-se. Ela não parecia uma alucinação. Ela cheirava a terra e suor. Ela desatou uma pequena botija de barro do cinto.

— Beba — disse ela, estendendo o frasco.

Miguel virou o rosto, cerrando os dentes. Veneno. Ela vai terminar o serviço. A desconfiança era seu último escudo.

Zarah parou. Seus olhos, translúcidos, pareceram ler o terror na mente dele. Sem uma palavra, ela levou a botija aos próprios lábios

e bebeu um gole longo. Limpou a boca com as costas da mão e estendeu o frasco novamente, um desafio silencioso.

— É Lactenys. Vida. Não morte.

A dor no peito de Miguel tornou-se insuportável. Entre o medo de morrer e o medo de ser envenenado, a dor escolheu por ele. Com a mão trêmula, ele aceitou a botija.

O líquido era morno e espesso. Tinha gosto de leite com mel e algo metálico.

No instante em que ele engoliu, o mundo parou.

Não houve formigamento. Houve uma reconstrução. Ele sentiu as fibras de seus músculos se reconectando, o osso da costela estalando de volta ao lugar, a pele se fechando. Não foi suave; foi uma agonia reversa, rápida e brutal.

Miguel arfou, o ar entrando limpo nos pulmões pela primeira vez. Ele olhou para o próprio corpo, tocando o local onde a dor residia segundos antes. Nada. Apenas a memória do impacto.

— O que… o que é você? — ele sussurrou, olhando para Zarah com um misto de gratidão e terror. — Onde estão eles? Meus pais… o

carro…

Zarah baixou os olhos. A “voz” na cabeça de Miguel voltou, agora tingida de uma tristeza azulada. “Perdidos. Longe. O véu se fechou.”

— Você… você fala na minha mente. — É a Nousis — disse ela verbalmente, como se explicasse que o céu é azul. — Tudo aqui fala, se você souber ouvir.

Um grito agudo, como o de uma águia, mas com o peso de um leão, rasgou o céu.

Miguel olhou para cima. No alto de um penhasco, recortado contra os dois sóis, uma criatura colossal abriu asas que poderiam cobrir um carro inteiro. Penas douradas, corpo de fera. Um Grifo.

O monstro olhava diretamente para ele.

— Aquele… — Miguel apontou, a voz falhando. — Aquele é Aquilion — disse Zarah, levantando-se e oferecendo a mão. — O Guardião. Ele diz que você deve vir.

Miguel olhou para a mão dela. Olhou para o mundo impossível ao redor. Para o local onde deveria estar a estrada, o carro, sua vida. Não havia nada. Apenas a floresta alienígena e a garota com voz na

mente.

Se ficasse, a loucura o pegaria. Se fosse… talvez houvesse respostas.

Ele segurou a mão de Zarah. Era quente. Humana. A única âncora em um mar de estranheza.

— Leve-me — ele disse, e o sussurro da terra sob seus pés pareceu vibrar em aprovação.

Capítulo 2 — A Aldeia do Lago Azul

Cena 4 — O Voo do Guardião e o Aconchego do Lar

O calor do leite ainda ardia nas costelas de Miguel, uma solda biológica que colava seus ossos, mas cobrava o preço em exaustão. Cada músculo parecia um fio desencapado.

— Eu… eu consigo andar — disse ele, a voz rouca, raspando na garganta.

Era uma mentira. Ele sabia. Mas a necessidade de não ser um fardo, de recuperar algum fragmento da dignidade perdida na lama do acidente, o impulsionou. Ele forçou as pernas. A mão buscou apoio no tronco prateado de uma árvore, a casca pulsando sob seus dedos.

Deu um passo. O mundo girou. A gravidade parecia puxá-lo com o dobro da força da Terra.

Suas pernas cederam como água. Ele tombou, os joelhos batendo na relva úmida, o gosto amargo da bile subindo à boca. Vergonha. Uma vergonha quente e infantil latejou em seu peito. Inútil. Você não conseguiu salvá-los e agora não consegue nem ficar em pé.

— Você está esgotado — disse Zarah. Não havia julgamento na voz dela, apenas um fato clínico.

Ela se ajoelhou ao lado dele. Ele esperava impaciência, mas sentiu uma onda mental — suave, azulada — de preocupação. “Tão frágil. Como vou protegê-lo se nem o mundo dele o poupou?”

O pensamento dela invadiu a mente dele antes que ele pudesse erguer barreiras.

Então, o ar mudou. A pressão atmosférica caiu, e um cheiro de ozônio e tempestade antiga preencheu a clareira.

— O caminho a pé será longo demais para ele.

A voz não veio dos ouvidos. Ela ressoou na caixa torácica de Miguel, profunda, feita de raiz e trovão.

Entre duas rochas, a folhagem se partiu. O que emergiu não foi um animal, foi uma lenda. Corpo de leão dourado, músculos rolando sob a pele como aço líquido. Cabeça de águia, com olhos que continham séculos de caçadas. Asas fechadas que pareciam muralhas de penas de bronze.

Aquilion. O Guardião.

Miguel parou de respirar. O instinto primata gritou predador. Ele se encolheu, o coração batendo contra as costelas recém-coladas.

A criatura inclinou a cabeça colossal, o bico curvo a centímetros do rosto de Miguel. O olho âmbar girou, focando nele com uma inteligência assustadora.

— Suba. — A ordem mental foi um imperativo físico.

— Não… — a voz de Miguel saiu como um chiado. — Isso… isso me devoraria.

Zarah caminhou até a besta. Para horror de Miguel, ela não sacou uma arma. Ela estendeu a mão e tocou a plumagem do pescoço do monstro. O Grifo fechou os olhos e soltou um som gutural, um ronronar que fez o chão vibrar.

Ela se virou para Miguel, estendendo a mão. — Ele é o Guardião, Miguel. A vontade dele é a lei deste vale. Se ele quisesse te ferir, você já seria memória.

Lógica. Fria e dura. Miguel olhou para a mão dela, depois para as garras do Grifo, capazes de esmagar um carro. Engoliu o pânico seco. Agarrou a mão de Zarah. Ela o puxou, e com uma força surpreendente, ajudou-o a subir no dorso da criatura.

Era quente. Muito quente. As penas eram ásperas como corda, e sob elas, ele sentia a pulsação lenta e poderosa de um coração gigante.

— A vista é melhor se mantiver os olhos abertos, rapaz. — A voz mental de Aquilion tinha um tom de diversão seca.

O Grifo flexionou as patas traseiras.

O salto foi uma explosão. A gravidade sumiu. As asas se abriram com um som de velas se esticando no vendaval, e de repente, o chão sumiu.

Eles subiram. O vento gelado cortou o rosto de Miguel, arrancando lágrimas de seus olhos. Ele enterrou o rosto nas costas de Zarah, o cheiro de lavanda dela a única coisa familiar no caos.

Mas a curiosidade venceu o medo. Ele abriu os olhos.

Abaixo deles, o mundo estranho e fabuloso se desdobrava. Não era apenas uma floresta. Era um oceano de verde e violeta, cortado por rios que brilhavam como veias de mercúrio. Montanhas flutuantes desafiavam a física no horizonte. E lá em cima, os dois sóis banhavam tudo em uma luz eterna.

Era aterrorizante. Era magnífico.

Pela Nousis, uma onda de comunicação se espalhou, invisível para Miguel, mas clara para o mundo: “Calliaris. Elmira. Estou chegando. Minha filha está comigo. Trago um… náufrago. Preparem a casa. Kaelar observa.”

O pouso foi controlado, mas pesado. A terra tremeu quando as garras de Aquilion tocaram o solo de uma clareira nos arredores de um vilarejo.

Miguel escorregou das costas do Grifo, as pernas tremendo incontrolavelmente. O cheiro mudara. Cheirava a lenha queimada, pão assado e ervas. Cheirava a… gente.

Moradores pararam seus afazeres. Crianças se esconderam atrás das saias das mães. O silêncio caiu sobre a Aldeia do Lago Azul. Dezenas de olhos — curiosos, desconfiados, temerosos — fixaram-se em Miguel. Ele era o elemento estranho, o corpo estranho no organismo saudável da aldeia.

Um casal se adiantou. O homem, alto e com mãos de quem trabalha a terra; a mulher, com olhos que espelhavam a serenidade de Zarah. Calliaris e Elmira.

— Sejam bem-vindos — disse Calliaris. Sua voz não tinha medo, apenas uma gravidade acolhedora. Ele olhou para Miguel, vendo além da sujeira e do sangue, vendo o menino quebrado. — O banho está pronto.

— Entre — completou Elmira, com um sorriso que não alcançava totalmente os olhos preocupados. — Descanse. As perguntas podem esperar a sopa esfriar.

Miguel se deixou levar. A casa de pedra era simples, mas o calor era real.

Mais tarde, limpo, vestido com roupas de tecido cru que pinicavam a pele, sentado diante de uma lareira que crepitava com chamas azuis, ele olhou para Zarah.

— Eles não perguntaram quem eu sou — sussurrou ele. — Como eles sabiam?

Zarah hesitou, o reflexo do fogo dançando em seus olhos. — Aqui, as notícias não viajam por palavras, Miguel. Elas viajam pelo sentir.

Lá fora, no alto da colina, Aquilion não descansava. O Guardião permanecia imóvel, uma gárgula dourada sob a luz das luas nascentes. Seus olhos varriam a orla da floresta. A Nousis da aldeia

estava calma, mas no limite de seus sentidos, havia uma estática. Um ponto cego.

O aconchego do lar era real, mas Aquilion sabia o que Miguel ainda não descobrira: neste mundo, a paz é apenas o intervalo entre duas tempestades.

Capítulo 2 — A Aldeia do Lago Azul

Cena 5 — Sussurros na Escuridão

Fora da casa de pedra, a noite de Valtoria se estendia espessa, pontilhada pela prata suave das três luas em diferentes alturas. Aquilion, imóvel como um monumento, sentia as correntes da Nousis trêmulas no ar. Algo ali era diferente — uma sombra que não pertencia à cadência daquele vale.

Seu aviso atravessou o silêncio, chegando até Zarah: “Cuidado. As sombras andam perto esta noite.”

No cercado, as Kyma se levantaram como se obedecessem ao mesmo chamado. Um círculo vivo ao redor da casa, peles lanosas contra a relva, olhos atentos virados para a mata.

Dentro, o segredo de Miguel era guardado. Ele dormia agitado, o corpo girando entre lençóis ásperos. No sonho, o acidente se repetia: metal retorcido, gritos, uma queda infinita. O pesadelo se dissolvia em corredores brancos, cheios de vozes abafadas. Rostos familiares, olhos fechados demais para quem devia viver. Ele queria tocá-los, acordá-los, mas as mãos afundavam no vazio.

— Mãe! — O grito o arrancou do sono.

Sentou-se, o corpo úmido de suor, os olhos arregalados na escuridão. O coração batia tão forte que doía nas costelas recém-coladas.

A porta se abriu. Zarah entrou, contornada pela luz esbranquiçada do corredor, o rosto meio oculto pelos cachos. Não precisou perguntar. A Nousis já lhe contava tudo. Ela sentou-se ao lado, não no colchão, mas numa banqueta próxima, respeitando o espaço.

O silêncio se arrastou, aconchegante.

— Foi só um pesadelo — disse ela, a voz desenhando ondas no ar,

abafando o frio do quarto.

Miguel passou a mão pelo rosto, buscando acreditar. — Parecia tão real… Vi minha família… em um hospital. Eles pareciam… em paz. É estranho, mas queria que fosse verdade.

Zarah inclinou a cabeça, a luz das luas escorrendo por seus ombros. — Neste mundo, nem tudo precisa fazer sentido para ser verdade — murmurou, e quando fechou os olhos, Miguel sentiu uma onda morna no ar. Era como se alguém lhe oferecesse uma manta invisível, um cheiro novo de flores e terra.

A respiração dele foi desacelerando. A mente analítica, buscando fugir da dor emocional, agarrou-se à curiosidade. — Zarah… — ele começou, olhando para a janela onde as três orbes brilhavam. — Você tem nomes para elas. Myrha, Corion, Velthar. Vocês têm nomes para os animais. Para a energia.

Ele se virou para ela, os olhos buscando uma âncora. — Mas… e para isto? O chão. O céu. O lugar onde estamos. Eu tirei o nome “Terra” dos meus mapas mentais. Que nome eu escrevo no lugar? Não posso estar em “lugar nenhum”.

Zarah sorriu, um sorriso que carregava orgulho e uma ponta de reverência antiga. — Valtoria. Chamamos de Valtoria. Significa “O

abraço dos dois sóis” na língua antiga.

— Valtoria… — Miguel testou o som na boca. Era sólido. Tinha peso. — É um bom nome. Melhor que “Lugar Estranho Onde Quase Morri”.

Zarah soltou um riso baixo, limpo. — As Kyma gostariam desse nome também. Elas têm senso de humor. — Elas sentem tudo, não é? — Miguel perguntou, tentando manter a leveza. — Sabiam que eu estava assustado hoje cedo. — Sabiam. São empáticas. — Então são tipo… detector de mentiras peludo?

Os dois riram juntos, e o riso de Miguel preencheu mais que o quarto — preencheu o peito, um eco de leveza perdida. O riso se dissolveu num silêncio novo. Zarah o olhou, demorando-se no contorno dos olhos dele à luz das luas.

— Seu mundo parece barulhento, Miguel. Barulhento e apressado. Mas você… você escuta bem.

Ele apenas assentiu, incapaz de responder, o olhar preso ao dela. Quis agradecer. Mas as palavras eram pesadas demais para a noite. Zarah sorriu, um sorriso pequeno, compreensivo, como se já tivesse ouvido o que ele não disse.

A voz de Calliaris ecoou do corredor, partindo o instante como uma pedra na água: — Zarah? Já é tarde. Amanhã será um dia longo.

Ela se levantou devagar, um pouco sem graça. — Durma bem, Elion… digo, Miguel. Em Valtoria, o sono também cura.

Ele a viu sumir na porta, o quarto mergulhado em prata. Miguel deitou-se de novo.

Valtoria.

Ele repetiu o nome mentalmente, como um mantra. Agora ele tinha uma coordenada. Sabia onde estava. E, pela primeira vez desde o acidente, sentiu que talvez, apenas talvez, pudesse encontrar um caminho a partir dali.

Lá fora, Aquilion ergueu a cabeça, os olhos dourados perfurando a escuridão da mata. O nome fora dito. O forasteiro aceitara o lugar. Mas as sombras na orla da floresta se agitaram, como se o som daquele nome as tivesse despertado de um sono faminto.

Capítulo 3 — O Juramento e a Primeira Sombra

Cena 6 — O Batismo do Esquecimento

A luz da manhã não trazia calor; apenas revelava a poeira dançando sobre a mesa de madeira, alheia ao peso que se instalara na cozinha. O gosto doce e elétrico das sementes de Eliosyn ainda formigava na língua de Miguel, mas sua mente estava inquieta. O choque havia passado, dando lugar a uma urgência por lógica.

— A Semana do Conhecimento se aproxima — disse Elmira. Sua voz carregava a gravidade de um veredito. — É tempo de mostrar quem você se tornou.

Miguel pousou a caneca na mesa com um estalo seco. — Antes disso… nós precisamos conversar. Ontem à noite, Zarah disse que “as sombras” estavam perto. Hoje vocês falam em testes. Eu acordei em uma floresta, vi um grifo e agora estou comendo sementes que brilham. Eu preciso de fatos. Onde eu estou eu já sei. Mas o que está acontecendo?

O ar na sala mudou. Pressão. Um zumbido estático. Calliaris, Elmira e Zarah ficaram imóveis, os olhos vidrados. A comunhão da Nousis.

Miguel apertou a borda da mesa, os nós dos dedos brancos. Eles estão conversando. E eu sou o único surdo na sala. A exclusão doía, mas também o irritava. — Não façam isso — ele disse, a voz subindo um tom. — Não falem na minha frente sem falar comigo.

O silêncio se quebrou quando Calliaris piscou, voltando à realidade com um suspiro pesado. Ele olhou diretamente para Miguel. — Você tem razão em perguntar. E a resposta traz um comando de Aquilion.

— Um comando? — Miguel franziu a testa. — Sobre o quê? — Sobre o seu nome.

Zarah se adiantou, tocando levemente o braço do pai. — Nomes são âncoras em Valtoria, Miguel. Mas o nome que você trouxe… “Miguel”… ele está marcado. As sombras já o provaram. Se continuarem a chamá-lo assim, elas o encontrarão.

Miguel soltou uma risada curta, incrédula. — As “sombras”. Vocês continuam usando essa palavra. O que são elas? Monstros? Fantasmas? E o mais importante: o que elas querem comigo? Eu sou só um estudante. Eu não tenho poderes, não tenho nada que interesse a ninguém aqui. Eu caí aqui por acaso!

Um silêncio desconfortável caiu sobre a mesa. Zarah trocou um

olhar rápido com Elmira. Eles sabiam que não era acaso. Sabiam da profecia, da intervenção de Kaelar, mas como explicar isso a alguém que acabara de perder a família sem parecer loucura ou destino cruel?

— Não foi acaso para elas — disse Calliaris, escolhendo as palavras com cuidado. — O mal que assola Valtoria, a força que chamamos de Atrum, busca qualquer luz nova que entre neste mundo. E você, rapaz… você chegou brilhando.

— Eu cheguei sangrando — corrigiu Miguel, ríspido.

— O sangue atrai os lobos, mas a luz atrai o caçador — disse Zarah, a voz suave, mas firme. — Eles não querem você pelo que você sabe. Eles querem você pelo que você é. Uma porta que se abriu onde não deveria. Uma anomalia. Para eles, você é uma peça no tabuleiro que eles não controlam. E o que eles não controlam, eles destroem.

Miguel absorveu aquilo. Não era uma resposta completa — ele sentia que havia mais —, mas tinha uma lógica interna aterrorizante. Ele era um alvo simplesmente por existir ali.

— Então… — ele começou, a voz mais baixa. — O que eu faço?

— Você desaparece — disse Calliaris. — Para sobreviver, “Miguel”

precisa deixar de existir nestas terras. Você precisa assumir uma nova identidade. Um nome que tenha a proteção de Valtoria, não o cheiro de outro mundo.

O mundo girou devagar. Deixar de existir.

Miguel se levantou, a cadeira tombando para trás. — Não. — A resistência veio do fundo do estômago. — Não vou fazer isso. É a única coisa que sobrou! O carro, as roupas, eles… tudo se foi. O meu nome é a única coisa que minha mãe me deu que eu ainda tenho. Se eu tirar isso… é como matá-los de novo.

— Não é matar — disse Zarah, dando um passo à frente, invadindo o espaço dele com uma urgência feroz. — É esconder. O garoto que eles amavam morreu na estrada, Miguel. Ou você aceita isso e se esconde sob um novo manto, ou a sombra que caça aquele garoto vai terminar o serviço e matar o homem que pode sobreviver aqui.

As palavras foram um tapa. Miguel olhou para ela, procurando a mentira, mas só encontrou uma preocupação desesperada.

— Você quer honrá-los? — ela continuou, segurando o olhar dele. — Então viva. Não se torne um mártir por um nome. Elion.

A palavra saiu como um sopro. — “Aquele que traz a Luz”. É assim

que Aquilion o nomeou. É um escudo. Use-o.

Miguel engoliu em seco. O medo de perder a si mesmo lutava com a lógica fria de Zarah. Ele olhou para as sementes douradas na tigela, depois para a porta, onde a luz do sol parecia subitamente perigosa.

— Se eu aceitar… — ele sussurrou, a voz rouca. — Se eu for esse tal de Elion… vocês prometem que não vão me deixar esquecer quem eu fui? Que não vão me deixar esquecer deles?

Elmira se aproximou, colocando a mão no ombro dele. — A memória reside no sangue, criança, não no nome. Valtoria não rouba isso.

Miguel fechou os olhos. Imaginou o rosto da mãe, guardou-o em uma caixa mental e trancou. — Tudo bem — disse ele, abrindo os olhos. Eram olhos mais velhos. — Miguel fica aqui, nesta cozinha. Quem vai para o lago é Elion.

Calliaris assentiu, solene. — Vamos. O Guardião espera.

Capítulo 3 — O Juramento e a Primeira Sombra

Cena 7 — O Juramento do Lago Azul

O caminho ao lago era de silêncio contido. Galhos se partiam no sub-bosque, folhas farfalhavam sem vento. Miguel — não, Elion — sentia a pele eriçar. O novo nome pesava no peito como uma pedra fria, uma promessa que ele não tinha certeza se podia cumprir.

Zarah caminhava ao seu lado, os ombros rígidos traindo o alarme. “Não temam. Estou com vocês.” A voz de Aquilion na mente deles era um pilar de bronze, firme e quente.

À beira da água, o Guardião parecia esculpido da própria luz do amanhecer. O lago pulsava ao redor, superfície azul refletindo as três luas ainda hesitantes no céu.

— Aproximem-se — trovejou a voz física do Guardião, fazendo a água vibrar.

Elion deu um passo à frente. Sentiu-se pequeno diante daquela majestade.

— Um forasteiro chega a este mundo. Uma vida foi partida, para

que outra nascesse — anunciou Aquilion, olhos de águia cravados nele. — Aqui, um nome é abrigo, mas também dívida. “Elion” — aquele que traz a Luz. Mas o nome, para ser seu, exige sangue e palavra.

Elion olhou para Zarah. Ela assentiu, os olhos marejados. Coragem, diziam eles.

— Valtoria não é refúgio sem preço. O mundo lhe oferecerá sua força. Em troca, pede sua lealdade. Você aceita?

O silêncio pesou. O mundo esperava.

— Aceito — sussurrou Elion. A palavra saiu arranhada.

— Então, repita: Eu, Elion, juro proteger a luz de Valtoria. Juro combater a escuridão que busca corrompê-la. Ofereço minha vida a este mundo e, em troca, aceito seu poder como meu.

Elion respirou fundo. O ar tinha cheiro de água doce e promessa. — Eu, Elion, juro proteger a luz de Valtoria…

No último som, o ar gelou. O cheiro de água doce sumiu, substituído por um fedor de ozônio queimado e carne podre.

Um guincho agudo, não animal, mas metálico e rasgado, partiu o céu.

Três vultos desabaram das árvores. Corpos grotescos, uma mistura errada de babuíno e morcego, com placas de metal fundidas à carne cinzenta. Gargyllon.

— Protejam-se! — Calliaris bradou, puxando Elmira.

Tudo foi instinto e caos.

A primeira criatura se lançou sobre as Kyma. Elion viu, paralisado. Não houve sangue. O monstro cravou as garras no flanco do animal e a luz da Kyma foi sugada. O pelo branco tornou-se cinza, os olhos opacos. A vida não saiu; foi bebida.

A segunda criatura investiu contra Zarah. — Zarah! — Elion tentou gritar, tentou se mover, mas seus pés eram chumbo. É o carro. Estou preso de novo. Não consigo fazer nada.

Zarah não congelou. Ela girou, uma explosão de luz branca — pura Nousis — irrompendo de suas mãos. O pulso atingiu o Gargyllon no peito, jogando a besta contra uma árvore com o chiado de carne queimada.

A terceira criatura, a maior, avançou sobre Aquilion. Ousadia suicida.

O Guardião nem moveu as garras. Ele abriu o bico e um raio dourado, denso como matéria solar, vaporizou o monstro no ar. Não houve corpo para cair no chão; apenas cinzas e silêncio.

As duas criaturas restantes, vendo o poder do Guardião, guincharam e recuaram para as sombras da floresta, movendo-se com uma velocidade antinatural.

O silêncio caiu, pesado e quebrado apenas pelos gemidos.

Elmira tinha um corte no braço que não sangrava vermelho, mas preto — a corrupção do toque. Zarah estava ajoelhada ao lado da Kyma morta, as mãos brilhando em uma tentativa inútil de cura.

Elion estava de pé, tremendo. Ele olhou para suas próprias mãos. Vazias. Inúteis. Eu jurei proteger… e não fiz nada.

Então, uma voz invadiu a mente de todos. Não era a voz quente de Aquilion, nem a doce de Zarah. Era uma voz fria, sintética, que parecia arranhar o interior do crânio.

“Gargyllon. Tratem-nos com seriedade. A colheita apenas

começou.”

A voz sumiu, deixando um rastro de náusea.

Aquilion virou sua cabeça colossal para a floresta, os olhos em chamas. Elion ergueu os olhos para as três luas. Elas olhavam de volta, impassíveis. O nome “Elion” não era mais uma roupa emprestada; agora, estava manchado pela realidade da guerra.

Ele soube, no corpo e na alma, que o mundo acabara de mudar para sempre. E que a segurança do Lago Azul era uma mentira.

Capítulo 3 — O Juramento e a Primeira Sombra

Cena 8 — O Conclave Silencioso

A poeira da batalha assentava, mas o ar continuava elétrico com o cheiro de ozônio e sangue de Kyma. Zarah ajoelhava-se ao lado do animal morto, suas mãos brilhando com uma luz de cura que não tinha mais o que salvar.

Elion observava o corpo do monstro vaporizado por Aquilion. Não havia sangue vermelho, apenas uma graxa escura e viscosa.

— O que eram aquelas coisas? — A voz dele cortou o luto silencioso da clareira.

Zarah ergueu os olhos, o rosto manchado de lágrimas. — Elion, por favor…

— Não. — Ele caminhou até os restos fumegantes, a mente de estudante de engenharia ignorando o choque para focar nos fatos. — Vocês falam de “sombras” como se fosse uma lenda mística. Mas isso aqui… isso é engenharia.

Ele chutou um pedaço de carapaça. O som foi metálico, oco.

Aquilion, que permanecia imóvel como uma gárgula de ouro, virou a cabeça colossal lentamente. O olho âmbar fixou-se em Elion, não com surpresa, mas com um peso antigo.

— Vi o metal, forasteiro — a voz do Guardião ressoou, grave como pedra rolando. — A Sombra sempre se deleitou em deformar a carne. A tortura é a linguagem deles.

— Não era tortura, era padrão — corrigiu Elion, o medo dando

lugar à lógica fria. Ele apontou para a junção do ombro da criatura. — Aquela placa não foi martelada no osso de qualquer jeito. Foi soldada com precisão. Os rebites nos três monstros eram idênticos. Mesma liga, mesmo local de inserção.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a batalha. Aquilion olhou para o rapaz com uma nova avaliação.

— Isso não é sadismo aleatório — concluiu Elion, sentindo um arrepio que não vinha do frio. — É uma linha de montagem. Eles estão sendo fabricados. Se vamos lutar contra uma indústria, eu preciso saber quem é o general.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Calliaris trocou um olhar tenso com Elmira.

— Ele tem razão, Aquilion — disse Zarah, levantando-se. Sua voz tremia, mas era firme. — Eles sabiam onde atacar. Sabiam o momento exato. Isso não foi instinto animal.

Aquilion abriu as asas, criando uma barreira de vento suave entre ele e o grupo. — Cuidem dos feridos. O forasteiro fez a pergunta que eu temia fazer. Agora, preciso buscar a resposta onde ela reside.

O Guardião virou-se para o lago, fechando os olhos. Sua respiração

desacelerou até parar. O corpo físico tornou-se uma estátua, mas sua presença expandiu-se, violenta e invisível.

O Santuário da Mente

A consciência de Aquilion disparou. Não voou pelo céu, mas pelas raízes do mundo. Passou por rios subterrâneos de luz, atravessou a vasta rede de Nousis que conectava cada ser vivo de Valtoria, até chegar ao centro.

Lá, no coração da Floresta Milenar, onde o tempo era espesso como mel, ele o encontrou.

“Mestre.”

A resposta não veio como palavras, mas como uma estação. Um outono antigo, cheio de folhas caindo e sabedoria cansada. “Eu senti o rasgo, Aquilion. Sangue no Lago Azul. A paz foi quebrada.”

A presença de Kaelar era vasta, uma árvore de luz cujos galhos tocavam dimensões que Aquilion mal compreendia. Mas hoje, havia uma sombra nessa luz.

“Eles não eram bestas selvagens, Mestre. Eram híbridos. Metal e carne. O rapaz de Terranox… ele viu a engenharia por trás da fúria.

Ele perguntou quem é o general.”

Um silêncio longo ecoou na Nousis. Uma hesitação que Aquilion nunca sentira em seu mestre antes.

“O rapaz vê o que nos recusamos a ver. Há um escudo psíquico ao redor do Norte. Uma névoa que minha visão não consegue penetrar. Mas sinto o sabor da Nousis Atrum. Fria. Calculista. Não é o caos, Aquilion. É ordem. Uma ordem maligna.”

Um vulto de memória, antigo e temido, roçou a consciência de Aquilion. — Mestre… a assinatura energética… lhe parece familiar? — a pergunta saiu como um sussurro proibido.

A conexão estremeceu. A presença de Kaelar oscilou, turva por uma confusão que nem sua sabedoria conseguia dissipar. — Sinto um padrão frio, Aquilion. — A voz de Kaelar ecoou com gravidade. — Não é um rosto, é uma estrutura. Uma maldade organizada… uma ordem que afronta a natureza.

A tristeza de Kaelar foi substituída por uma resolução de aço. “Não podemos mais esperar nas sombras. Se eles têm um exército, nós precisamos forjar o nosso. O tempo da inocência acabou.”

“O que devo fazer?”

“Inicie a seleção. Não apenas na sua aldeia. Envie o chamado aos quatro ventos. Sylthar, Kaldyra, Velmor, Nythera. Convoque os jovens. Vamos reabrir a Forja dos Discípulos.”

“Eles são crianças, Mestre. Não estão prontos.”

“Ninguém está pronto para o fim do mundo, meu amigo. Mas a guerra chegou à nossa porta. Prepare-os. Ou não restará ninguém para lembrar quem fomos.”

A conexão se partiu.

Aquilion abriu os olhos na margem do lago. O sol estava se pondo, tingindo a água de sangue e ouro, um espelho da violência daquele dia. Elion, Zarah e os outros olhavam para ele, esperando, o medo e a esperança misturados em seus rostos sujos de fuligem.

O Guardião ergueu-se, e sua sombra cobriu a aldeia.

— A resposta foi dada — trovejou ele, a voz ressoando nas pedras. — O luto deve esperar. A seleção para a Forja dos Discípulos começa ao amanhecer.

Aquilion então baixou a cabeça colossal, focando seu olho âmbar diretamente no rapaz de Terranox. O jovem que havia questionado

a natureza do inimigo. O jovem que tremia, mas não fugia.

— A cerimônia da água foi quebrada, rapaz. O lago não pôde abençoá-lo em paz. — O Guardião deu um passo à frente, a pressão de sua presença fazendo o ar vibrar. — Mas em Valtoria, o sangue sela pactos mais fortes que a água. Você viu a face do inimigo e exigiu seu nome. Você ficou de pé quando outros teriam corrido.

Zarah prendeu a respiração. Elion sustentou o olhar da fera, sentindo o peso do amuleto de Kaelar contra o peito.

— O forasteiro morreu na estrada — decretou Aquilion. — Quem está diante de mim agora carrega o peso da guerra. Levante a cabeça, Elion. Seu nome foi forjado. Agora, trate de merecê-lo.

Elion assentiu, uma única vez. O nome não parecia mais uma roupa emprestada; agora, tinha o peso de uma armadura.

A noite caiu sobre o Lago Azul, e com ela, o silêncio de quem sabe que o amanhecer trará espadas, e não canções.

Capítulo 3 — O Juramento e a Primeira Sombra

Cena 9 — A Convocação dos Discípulos

O retorno do lago foi feito sob um silêncio que pesava mais que as armaduras. Não havia mais a curiosidade inocente sobre o forasteiro; havia apenas o cheiro de carne queimada e a certeza de que a fronteira havia sido violada.

Quando Aquilion pousou no centro da praça da aldeia, o impacto de suas garras no chão soou como um martelo de guerra. A terra tremeu, e as portas se abriram. Não por curiosidade, mas por temor. Mães puxavam filhos para perto das saias. Anciãos saíam com expressões graves.

Elion permaneceu ao lado de Zarah, sentindo-se exposto. O amuleto de Kaelar queimava contra seu peito, um segredo quente em um dia frio.

— Escutem, povo do Lago Azul! — A voz de Aquilion não precisou de esforço para preencher o vale. Era clara, grave e carregada de uma autoridade que não admitia réplicas. — O tempo da colheita pacífica acabou. O ataque de hoje não foi um incidente. Foi um teste. E nós sangramos.

Um murmúrio de medo percorreu a multidão.

— O forasteiro viu o que nos recusamos a ver — continuou Aquilion, e dezenas de olhos se voltaram para Elion, pesados de julgamento. — O inimigo tem método. Tem ciência. E para enfrentá-lo, nossa fé antiga não basta. Precisamos de armas novas.

Aquilion abriu as asas, douradas e terríveis sob a luz das três luas pálidas que ainda manchavam o céu da manhã. — Por ordem do Guardião Supremo Kaelar, a Forja dos Discípulos está reaberta. Não buscaremos apenas comunicadores ou curandeiros. Buscaremos guerreiros. Aqueles cuja Nousis pode ser tanto escudo quanto espada.

Do meio dos jovens, Kaelen deu um passo à frente. Ele era alto, forte, com a postura de quem nasceu para liderar, mas seus olhos estavam fixos em Elion com um desprezo gelado.

— Guerreiros, meu senhor? — A voz de Kaelen era respeitosa, mas afiada. — Então por que o estranho está aqui? Ele mal consegue ficar em pé. Ele não tem clã. Ele não tem história. Vai colocar nossa segurança nas mãos de alguém que nem sabe o nome das luas?

O comentário arrancou murmúrios de concordância. Elion sentiu o rosto queimar. O medo do “impostor” gritou em sua mente. Ele

está certo. Eu sou um acidente.

Mas Zarah deu um passo à frente, colocando-se entre Elion e o olhar da aldeia. Ela não disse nada, apenas ergueu o queixo, seus olhos azuis desafiando Kaelen. Coragem e fé, dizia sua postura.

Aquilion baixou a cabeça, o bico curvo a centímetros de Kaelen. — A força não é a única medida de um guardião, Kaelen. O aço bruto é forte, mas quebra. É o aço temperado no fogo estranho que segura o corte. Elion participará. Ele será testado como todos vocês. E se falhar, cairá. Mas se levantar… será por mérito próprio.

O Guardião endireitou-se, ignorando o rancor silencioso de Kaelen. — Agora, preparem suas mentes. O chamado não é apenas para esta aldeia. Valtoria inteira deve responder.

Aquilion fechou os olhos.

Não houve som, mas o ar na praça densificou. A pressão atmosférica caiu. Elion sentiu os pelos do braço se eriçarem, uma eletricidade estática que tinha gosto de metal na língua.

Do centro de Aquilion, um pulso de pura Nousis expandiu-se. Uma onda de choque invisível.

Ela varreu a aldeia, atravessou a floresta e subiu as montanhas.

No Norte gelado de Kaldyra, jovens caçadores pararam no meio da neve, ouvindo uma trombeta que não existia. Nas planícies douradas de Sylthar, agricultores largaram suas ferramentas, sentindo um calor súbito no peito, um chamado de dever. Nas florestas profundas de Nythera, os sensíveis olharam para o oeste, seus olhos brilhando com a resposta.

A voz de Aquilion ressoou em cada mente apta, em cada canto do continente: “Discípulos da Luz… a sombra se organizou. O tempo da inocência morreu. Venham ao Santuário do Lago Azul. Tragam vossa coragem e vosso dom. Valtoria precisa de vocês.”

Na praça, o eco do chamado mental fez alguns joelhos cederem.

— A seleção começa agora — disse Aquilion, abrindo os olhos. — Quem se julgar capaz, dê um passo à frente.

Houve um momento de hesitação. O medo da guerra era real.

Kaelen foi o primeiro, estufando o peito, olhando para Elion com desafio. Tavian suspirou, olhou para o céu como quem pede paciência, e avançou. Nara ajustou as luvas e caminhou.

Elion olhou para Zarah. Ela não se moveu, esperando por ele. Eu jurei, pensou ele. Mesmo que eu seja uma fraude, eu jurei.

Tremendo, ignorando o enjoo em seu estômago e o peso dos olhares, Elion deu um passo à frente.

Ele não era um guerreiro. Mas não recuaria.

Sobre a obra

Miguel, um jovem de Terranox, é arrancado de sua família durante um acidente e desperta em Valtoria, um mundo atravessado pela Nousis. Enquanto busca compreender o novo mundo e encontrar um caminho de volta, descobre que sua presença está ligada a uma guerra antiga e a um poder capaz de salvar — ou destruir — aquilo que passou a amar.