Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio
Cena 1 — O que não foi dito
O lago devolvia dois sóis. O caderno, apenas um. Elion manteve o carvão suspenso sobre a página. O círculo solitário ocupava o alto do desenho, cercado por riscos dourados que tentavam reproduzir a luz sobre a água. Faltava alguma coisa. O reflexo do lago entregava a resposta diante de seus pés: dois discos brancos tremendo entre pequenas ondas. Dois. Como poderia esquecer um sol?
A ponta do carvão tocou o papel. O segundo círculo saiu menor, apertado contra o primeiro, uma correção feita por alguém que conhecia a paisagem apenas por descrição. Elion esfregou o polegar sobre o traço. A mancha escura se espalhou. Agora havia três formas no céu. Fechou o caderno. Um martelo bateu contra madeira atrás dele. Três golpes rápidos. Pausa. Mais dois. O som atravessou a água, seco, regular. Outra equipe respondia perto das casas com pancadas mais lentas. Pedras raspavam. Cordas estalavam. Alguém gritou por uma viga.
— Aquele lado precisa de outra trava!
— Malak colocava duas!
— Malak não está aqui. Segure a ponta.
O martelo voltou a bater. Elion pressionou os dedos contra a capa do caderno. Malak. Um rosto tentou surgir. Barba curta. Ombros largos. Uma cicatriz— A imagem dissolveu-se antes dos olhos. Talvez a cicatriz pertencesse a outro homem. Talvez Malak nem tivesse barba. Elion puxou o ar até o peito doer. Três dias. Havia três dias que acordava com lembranças inteiras misturadas a espaços brancos. Coisas pequenas desapareciam primeiro: o nome de uma ferramenta, o caminho entre duas casas, o sabor de uma raiz que comera durante semanas.
Naquela manhã, um sol. Ontem, o rosto de Dalen. Antes disso, o próprio nome. A lembrança de Miguel, como a família o chamava em Terranox, surgiu primeiro. Três batimentos depois veio Elion, o nome que usava em Valtoria. A mão subiu até o peito. Sob a túnica, o Símbolo de Propósito aqueceu sua palma. Violeta- púrpura. Fraco durante o dia, mais intenso quando fechava os olhos. Elion contou o coração. Um. Dois. Três. Quatro. A pausa abriu-se entre as costelas. O lago continuou tremendo. Cinco. Ele retirou a mão.
— Se continuar encarando a água desse jeito, ela vai cobrar aluguel.
Tavian caminhava pelo píer com duas tigelas equilibradas nos braços. Uma faixa branca atravessava sua testa. O tecido escondia parte do corte, mas o modo como mantinha o pescoço rígido denunciava o restante. Nara vinha atrás, carregando uma jarra e quatro copos.
— Ele está tentando pensar — disse ela. — Você não reconhece porque nunca fez.
— Penso o tempo todo.
— Dê um exemplo.
— Agora estou pensando em não responder.
— Primeiro pensamento útil do dia.
Tavian sentou-se ao lado de Elion e empurrou uma tigela em sua direção. O vapor alcançou seu rosto. Ervas. Raízes cozidas. Alguma coisa salgada. O estômago permaneceu quieto.
— Elmira mandou você comer tudo — disse Tavian.
— Ela mandou isso ou você acrescentou a ameaça?
— Disse que, se você devolver outra tigela cheia, ela vem alimentar você com as próprias mãos.
Nara colocou a jarra no chão.
— Com uma colher grande.
— Muito grande — reforçou Tavian. — Talvez usada para mexer Lactenys.
Elion pegou a tigela. O calor queimou as pontas dos dedos. A palavra sumiu. O objeto estava ali. Madeira escura. Bordas curvas. Caldo dentro. A palavra. Qual era a palavra? Tavian falava alguma coisa sobre Elmira, mas a voz chegava abafada. Copo? Prato? Tigela. Elion segurou-a com mais força. O caldo tremeu.
— Está quente? — perguntou Nara.
— Estou bem.
Nara olhou para as mãos dele. Elion levou a primeira colher à boca antes que ela pudesse perguntar mais. O gosto veio fraco. Sal, calor e uma raiz adocicada que deveria ter nome. Engoliu.
— Viu? — Tavian apontou para ele. — Funciona. Comida entra, Elion continua vivo. Ciência.
Nara sentou-se diante dos dois.
— XyrOs mandou que ele permanecesse na cama.
— XyrOs também disse que eu precisava de observação contínua — respondeu Elion.
— Precisa.
— Vocês estão observando.
— Estamos impedindo que desapareça.
Tavian parou de sorrir. A colher girou entre seus dedos. O peso da palavra chegou tarde demais. Desapareça. O templo abriu-se dentro da cabeça de Elion. Água correndo pelas pedras. A luz atravessando o corpo. Zarah no chão. Sangue. Depois, uma superfície branca. A lembrança terminava ali.
— Foi uma escolha ruim de palavra — disse Tavian.
— Foi precisa — respondeu Nara.
— Precisão também pode ser uma escolha ruim.
Passos tocaram a madeira. Elion conheceu o ritmo antes de erguer o rosto. Zarah caminhava pela margem do píer. Os cabelos estavam presos numa trança solta, com fios escapando junto ao rosto. Uma faixa nova cobria o ombro ferido. O braço permanecia próximo ao corpo durante cada passo. Os olhos dela encontraram a tigela nas mãos dele. Depois o caderno fechado. Depois o rosto.
— Você saiu sozinho.
O peito de Elion apertou. A conexão tocou a margem de sua consciência. Suave. Contida. A presença dela esperando do lado de fora. Ele ergueu a tigela.
— Trouxe comida comigo.
Tavian olhou para Nara.
— Tecnicamente, nós trouxemos.
— Ninguém perguntou — disse Elion.
Zarah parou diante dele.
— Elmira acordou e encontrou a cama vazia.
— Eu fui até o lago.
— Sozinho.
— Consigo caminhar.
— Ontem caiu ao tentar vestir a túnica.
Tavian baixou os olhos para o próprio caldo. Nara serviu água. Elion sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Meu pé ficou preso.
— No chão?
— No tecido.
— O tecido estava no chão.
— Exatamente.
A boca de Tavian se contraiu. Zarah manteve o rosto firme, mas a pressão da presença dela diminuiu. Um passo para trás sem mover os pés. Elion odiou perceber. Ela se sentou diante dele, ao lado de Nara. Perto o suficiente para que o cheiro de lavanda alcançasse o vapor do caldo. Distante o bastante para que os joelhos não se tocassem. O beijo voltou pela boca. Sal. Fôlego curto. Os dedos dela apertando seu rosto. Ou os dedos dele? A lembrança mudou de posição.
Por um instante, Elion sentiu o ferimento no ombro. Uma dor quente que não lhe pertencia. Depois, seus próprios lábios contra os dela. Piscou. O lago retornou. Zarah observava.
— Está com dor?
— Só cansaço.
Elion respondeu rápido demais. O olhar dela permaneceu nele por mais um instante.
— XyrOs disse que sua frequência cardíaca mudou durante a noite.
Elion virou-se para Nara.
— Ele conta para todo mundo?
— Conta para quem pergunta.
— Você perguntou?
— Sim.
Tavian levantou a colher.
— Eu não perguntei. Quero que isso seja registrado.
— Você estava dormindo — disse Nara.
— Outro motivo.
Elion tomou outra colher de caldo. A mão esquerda formigava. Começava nos dedos, subia pelo pulso e desaparecia perto do cotovelo. Fechou a mão sobre a perna.
— Vamos fazer isso logo — disse Tavian.
O humor escorregou da voz. Elion deixou a colher dentro da tigela.
— Fazer o quê?
Tavian olhou para Nara. Nara olhou para Zarah. Zarah manteve os olhos em Elion.
— Falar do templo — disse ela.
A madeira do píer estalou sob uma onda. Elion procurou uma resposta segura.
— Já falamos.
— Você disse que puxou a energia — respondeu Nara. — Depois dormiu.
— Desmaiei.
— Morreu — corrigiu Zarah.
A correção atravessou o peito e parou atrás do coração. Tavian largou a colher na tigela.
— Zarah.
— Ele sabe.
— Saber e ouvir são coisas diferentes.
— Eu estava lá — disse Elion.
Ninguém respondeu. Zarah inclinou o rosto.
— Estava?
Ele apertou a borda da tigela. O templo. A energia. O corpo de Zarah no chão. A mão sobre o ferimento. Depois, luz. Talvez tivesse estado ali. Talvez tivesse saído antes do fim.
— Eu me lembro da maior parte — disse.
Nara apoiou os braços nos joelhos.
— Qual foi a última coisa?
Outra falha se abriu. Elion procurou. A marca queimando. O cristal. O rosto de Zarah. A boca dela.
— Rakthor a feriu.
— Depois — disse Zarah.
— Eu interrompi a transmissão.
— Depois.
A pressão atrás dos olhos cresceu.
— Direcionei a energia para mim.
— Depois — repetiu Nara.
Elion olhou para Tavian. O amigo mantinha as mãos fechadas em torno da tigela.
— Houve luz — disse Elion.
Tavian passou a língua pelos lábios.
— Houve.
— Vocês foram arremessados.
— Fomos.
— A estrutura cedeu.
— Parte dela.
— E então acordei.
Nara não piscou.
— Isso é tudo?
Elion sentiu a mão esquerda desaparecer. Os dedos ainda estavam ali, fechados sobre a perna. A pressão do tecido havia sumido. Moveu o polegar. A mão obedeceu. A sensação não voltou.
— É tudo que importa.
Tavian baixou a cabeça. Zarah permaneceu imóvel. A presença dela encostou outra vez na barreira de Elion. Uma pergunta sem palavras. Ele fechou a consciência. A pressão cessou. Zarah inspirou devagar. Ela havia sentido.
— XyrOs disse que seu corpo parou — falou Tavian.
Elion manteve os olhos no lago.
— Eu sei. — Ele disse que seu coração— — Eu sei. — Zarah e Aquilion— — Tavian.
O nome saiu mais duro que pretendia. O amigo recuou. Elion afrouxou os dedos em torno da tigela. — Desculpa.
Tavian assentiu, mas a colher permaneceu esquecida dentro do caldo. Nara assumiu a conversa. — Hoje ao entardecer vão concluir a pedra dos mortos.
Elion virou-se para ela. — Hoje? — Lian, Malak e Dalen — disse Nara. — O nome de Lyandra também será gravado. E o símbolo dos três Eres.
Cada nome trouxe um fragmento. Lian sorrindo perto de uma fogueira. Malak diante de uma porta quebrada. Dalen— Nada. Elion tentou outra vez. Dalen. O nome flutuava sem rosto. — Você vai? — perguntou Tavian. — Claro. — Pode descansar — disse Zarah. — Vou ao memorial. — Ninguém vai pensar menos de você se ficar. — Eu vou.
Elion respondeu antes de medir a própria voz. Nara passou os olhos por seu rosto. — O que lembra de Dalen?
O formigamento alcançou o ombro esquerdo. Elion levou a colher à boca. Vazia. Só percebeu quando a madeira tocou sua língua. Tavian ergueu os olhos. Nara esperou. — Ele lutou conosco — respondeu Elion. — Onde?
O lago apertou-se num corredor estreito. Dalen. Pedra. Gritos. Talvez Syntheris. Talvez Aethel. — Na guerra — disse.
Nara permaneceu em silêncio. Tavian mexeu-se ao lado dele. — Nara, para. — Ele não lembra. — Eu lembro.
— Então diga.
O coração bateu. Um. Dois. Pausa. O ar ficou preso no peito. Zarah se inclinou.
— Elion.
— Dalen morreu protegendo os outros.
Dalen morrera protegendo os outros — descrição ampla o bastante para quase qualquer morto daquela guerra. O olhar de Nara confirmou. Suor frio subiu sob a túnica de Elion.
— Minha memória está confusa — admitiu. — Só isso.
Zarah soltou o ar devagar.
— Quanto está confusa?
— Os últimos momentos.
— Desenhou alguma coisa hoje? — perguntou ela.
Elion olhou para o caderno. Tarde demais. Nara seguiu o movimento.
— Mostre.
— É só um desenho.
— Então mostre.
Elion colocou a tigela no píer e segurou o caderno sobre as pernas. O carvão manchava a borda. Um sol. Depois dois. Depois a sombra do terceiro círculo apagado. Se abrissem, veriam.
— Não terminei.
— Não precisa estar terminado — disse Zarah.
— Mais tarde.
A mesma palavra usada quando ela pedira para ver a marca. Mais tarde. O olhar de Zarah desceu ao peito dele.
— A marca também fica para mais tarde?
Tavian levantou-se.
— Talvez eu devesse verificar a reconstrução.
Nara segurou a barra da túnica dele.
— Sente.
— Eu posso ajudar em algum lugar.
— Pode ajudar aqui.
Elion passou a mão direita sobre a gola. A pele sob o tecido pulsava. Violeta. Quente. Linhas finas pareciam se espalhar ao redor da marca sempre que o coração falhava.
— Está estável — disse.
Zarah aproximou a mão. Parou antes de tocá-lo.
— Posso ver?
O beijo voltou. Desta vez pelos olhos dela. A própria face surgiu entre mãos ensanguentadas. O rosto imóvel. A boca sem cor. A imagem desapareceu. Elion segurou o pulso de Zarah antes que ela alcançasse a gola. O movimento assustou os dois. A pele dela estava quente. A conexão vibrou sob o contato. Medo. Culpa. Uma vontade quase dolorosa de aproximar-se. Elion soltou-a. — Depois.
Zarah recolheu a mão. — Certo.
A serenidade da voz tornou o espaço entre eles maior. Tavian olhou para o lago. — Existe outra coisa.
Nara fechou os olhos por um instante. — Tavian. — Já estamos todos sofrendo. Podemos sofrer com eficiência.
Elion sabia. O beijo. Zarah manteve o rosto voltado para ele, mas os dedos haviam se fechado sobre a própria faixa. — Eu lembro — disse Elion.
Elion respondeu antes que a pergunta viesse. Tavian ficou quieto. Nara desviou os olhos. Zarah sustentou os dele. — Lembra?
Elion buscou a boca dela dentro da memória. Sal. Calor. O ombro ferido. Mãos em seu rosto. Qual corpo tremia? Qual coração acelerava? — Sim.
Dizer aquilo arranhou a garganta. Zarah assentiu uma vez. A presença dela recuou. Elion esperava alívio. Recebeu vazio. — Então estamos bem? — perguntou Tavian.
Nara olhou para ele. — Essa foi a pior pergunta que fez hoje. — E concorre com muitas.
Zarah levantou-se. — Vou avisar Elmira que o encontramos.
Encontramos. Como se ele fosse um objeto perdido entre a casa e o lago. Elion segurou a borda do píer. — Zarah.
Ela parou. O pedido de desculpas ficou preso atrás dos dentes. A verdade também. Esqueci um sol. Não lembro o rosto de Dalen. Meu coração some. Sua memória está entrando na minha. — Vejo você no memorial — disse.
Zarah inclinou a cabeça. — Se estiver bem. — Estou.
O silêncio dela durou um batimento. Depois dois. — Certo.
Ela acreditou. Ou escolheu acreditar. Zarah caminhou pelo píer. Nara acompanhou-a após recolher a jarra. Tavian permaneceu ao lado de Elion. — Quer que eu fique? — Preciso terminar o desenho. — Posso ficar sem falar.
Elion olhou para ele. Tavian ergueu as mãos. — Consigo por períodos curtos. — Vá ajudar Nara. — Ela não precisa. — Você precisa.
O sorriso surgiu cansado. — Provavelmente.
Tavian deu dois passos e voltou-se. — Você vai mesmo ao memorial? — Vou. — E está bem?
A mão esquerda permanecia muda. O coração havia perdido outra batida. Elion abriu o caderno sobre os joelhos. — Estou.
Tavian relaxou os ombros. A confiança no rosto dele doeu mais que qualquer desconfiança. — Então até mais.
Os passos se afastaram. Elion permaneceu sozinho no píer. O desenho ocupava a página. Dois sóis agora. O terceiro borrão entre eles. Passou o polegar sobre a mancha até rasgar o papel. O coração bateu. Um. Dois. Três. Pausa. A mão esquerda abriu-se sobre a perna. Elion tentou fechá-la. Os dedos continuaram estendidos. O lago perdeu o som. As marteladas sumiram. O ar entrou pela boca e parou antes dos pulmões. Levante. Se alguém o encontrasse sentado, fariam perguntas.
Zarah voltaria. XyrOs o prenderia à cama. Kaelar saberia. Elion apoiou a mão direita no píer. As pernas receberam o peso. O mundo inclinou-se. Ele ficou de pé. Um passo bastaria para provar que o corpo ainda lhe pertencia. O pé direito avançou. A madeira desapareceu sob ele. O lago virou uma faixa branca. — Elion?
A voz de Zarah veio da margem. Ele abriu a boca. Estou bem. O coração bateu uma vez. Forte. A marca queimou sob a pele. Depois, o corpo esqueceu o que vinha a seguir.


