A Forja do Autor

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Série: O Mundo de Valtoria

O Mundo de Valtoria — A Origem das Sombras

Volume II

ISBN9798192922699
ASINB0HFC5LXGJ
Edição1ª edição
Páginas544
Volume2

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Leia as cenas disponibilizadas pelo autor.

Ver sumário completo

Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio

  1. Cena 1 — O que não foi dito
  2. Cena 2 — O corpo que se esqueceu
  3. Cena 3 — Sete horas
  4. Cena 4 — A vitória de Therion

Capítulo 2 — Horkonys

  1. Cena 5 — A saída da câmara Conteúdo protegido
  2. Cena 6 — A pergunta de Zarah Conteúdo protegido
  3. Cena 7 — O teste Conteúdo protegido
  4. Cena 8 — A sombra na fronteira Conteúdo protegido

Capítulo 3 — O Preço da Origem

  1. Cena 9 — O arquivo incompleto Conteúdo protegido
  2. Cena 10 — O conselho dividido Conteúdo protegido
  3. Cena 11 — O primeiro segredo de Kaelar Conteúdo protegido
  4. Cena 12 — A dívida de Morgana Conteúdo protegido

Capítulo 4 — A Passagem Impossível

  1. Cena 13 — O plano de duas frentes Conteúdo protegido
  2. Cena 14 — O dilema de Elion Conteúdo protegido
  3. Cena 15 — O mérito dos espíritos Conteúdo protegido
  4. Cena 16 — O ar de Vornix Conteúdo protegido

Capítulo 5 — As Ruínas que Ainda Respiram

  1. Cena 17 — A cidade sem habitantes Conteúdo protegido
  2. Cena 18 — O sobrevivente primordial Conteúdo protegido
  3. Cena 19 — A prova de confiança Conteúdo protegido
  4. Cena 20 — Corpos emprestados Conteúdo protegido

Capítulo 6 — Vornix Antes da Queda

  1. Cena 21 — A cidade viva Conteúdo protegido
  2. Cena 22 — O designado Conteúdo protegido
  3. Cena 23 — A jovem resistente Conteúdo protegido
  4. Cena 24 — O primeiro erro Conteúdo protegido

Capítulo 7 — A Gênese de XyrOs

  1. Cena 25 — A decisão da jovem Conteúdo protegido
  2. Cena 26 — Thalorion Conteúdo protegido
  3. Cena 27 — O nascimento Conteúdo protegido
  4. Cena 28 — A queda começa Conteúdo protegido

Capítulo 8 — Os Dois Amuletos

  1. Cena 29 — A acusação dos espíritos Conteúdo protegido
  2. Cena 30 — O preço de Zarah Conteúdo protegido
  3. Cena 31 — O amuleto de Elion Conteúdo protegido
  4. Cena 32 — A expulsão Conteúdo protegido

Capítulo 9 — O Vírus Desperta

  1. Cena 33 — Trinta por cento Conteúdo protegido
  2. Cena 34 — O combate interno Conteúdo protegido
  3. Cena 35 — O agente próximo Conteúdo protegido
  4. Cena 36 — O retorno quebrado Conteúdo protegido

Capítulo 10 — Aquilo que a Natureza Recusa

  1. Cena 37 — A relva fechada Conteúdo protegido
  2. Cena 38 — O Círculo das Kyma Conteúdo protegido
  3. Cena 39 — Morgana escolhe a missão Conteúdo protegido
  4. Cena 40 — A decisão de XyrOs Conteúdo protegido

Capítulo 11 — O Quarto Símbolo

  1. Cena 41 — A prova de Therion Conteúdo protegido
  2. Cena 42 — A nova ordem Conteúdo protegido
  3. Cena 43 — Kaelar encurralado Conteúdo protegido
  4. Cena 44 — A família respira Conteúdo protegido

Capítulo 12 — A Origem das Sombras

  1. Cena 45 — O início de Syrah Conteúdo protegido
  2. Cena 46 — Elion e Zarah Conteúdo protegido
  3. Cena 47 — A marca sobre Terranox Conteúdo protegido
  4. Cena 48 — O que ainda é casa Conteúdo protegido

Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio

Cena 1 — O que não foi dito

O lago devolvia dois sóis. O caderno, apenas um. Elion manteve o carvão suspenso sobre a página. O círculo solitário ocupava o alto do desenho, cercado por riscos dourados que tentavam reproduzir a luz sobre a água. Faltava alguma coisa. O reflexo do lago entregava a resposta diante de seus pés: dois discos brancos tremendo entre pequenas ondas. Dois. Como poderia esquecer um sol?

A ponta do carvão tocou o papel. O segundo círculo saiu menor, apertado contra o primeiro, uma correção feita por alguém que conhecia a paisagem apenas por descrição. Elion esfregou o polegar sobre o traço. A mancha escura se espalhou. Agora havia três formas no céu. Fechou o caderno. Um martelo bateu contra madeira atrás dele. Três golpes rápidos. Pausa. Mais dois. O som atravessou a água, seco, regular. Outra equipe respondia perto das casas com pancadas mais lentas. Pedras raspavam. Cordas estalavam. Alguém gritou por uma viga.

— Aquele lado precisa de outra trava!

— Malak colocava duas!

— Malak não está aqui. Segure a ponta.

O martelo voltou a bater. Elion pressionou os dedos contra a capa do caderno. Malak. Um rosto tentou surgir. Barba curta. Ombros largos. Uma cicatriz— A imagem dissolveu-se antes dos olhos. Talvez a cicatriz pertencesse a outro homem. Talvez Malak nem tivesse barba. Elion puxou o ar até o peito doer. Três dias. Havia três dias que acordava com lembranças inteiras misturadas a espaços brancos. Coisas pequenas desapareciam primeiro: o nome de uma ferramenta, o caminho entre duas casas, o sabor de uma raiz que comera durante semanas.

Naquela manhã, um sol. Ontem, o rosto de Dalen. Antes disso, o próprio nome. A lembrança de Miguel, como a família o chamava em Terranox, surgiu primeiro. Três batimentos depois veio Elion, o nome que usava em Valtoria. A mão subiu até o peito. Sob a túnica, o Símbolo de Propósito aqueceu sua palma. Violeta- púrpura. Fraco durante o dia, mais intenso quando fechava os olhos. Elion contou o coração. Um. Dois. Três. Quatro. A pausa abriu-se entre as costelas. O lago continuou tremendo. Cinco. Ele retirou a mão.

— Se continuar encarando a água desse jeito, ela vai cobrar aluguel.

Tavian caminhava pelo píer com duas tigelas equilibradas nos braços. Uma faixa branca atravessava sua testa. O tecido escondia parte do corte, mas o modo como mantinha o pescoço rígido denunciava o restante. Nara vinha atrás, carregando uma jarra e quatro copos.

— Ele está tentando pensar — disse ela. — Você não reconhece porque nunca fez.

— Penso o tempo todo.

— Dê um exemplo.

— Agora estou pensando em não responder.

— Primeiro pensamento útil do dia.

Tavian sentou-se ao lado de Elion e empurrou uma tigela em sua direção. O vapor alcançou seu rosto. Ervas. Raízes cozidas. Alguma coisa salgada. O estômago permaneceu quieto.

— Elmira mandou você comer tudo — disse Tavian.

— Ela mandou isso ou você acrescentou a ameaça?

— Disse que, se você devolver outra tigela cheia, ela vem alimentar você com as próprias mãos.

Nara colocou a jarra no chão.

— Com uma colher grande.

— Muito grande — reforçou Tavian. — Talvez usada para mexer Lactenys.

Elion pegou a tigela. O calor queimou as pontas dos dedos. A palavra sumiu. O objeto estava ali. Madeira escura. Bordas curvas. Caldo dentro. A palavra. Qual era a palavra? Tavian falava alguma coisa sobre Elmira, mas a voz chegava abafada. Copo? Prato? Tigela. Elion segurou-a com mais força. O caldo tremeu.

— Está quente? — perguntou Nara.

— Estou bem.

Nara olhou para as mãos dele. Elion levou a primeira colher à boca antes que ela pudesse perguntar mais. O gosto veio fraco. Sal, calor e uma raiz adocicada que deveria ter nome. Engoliu.

— Viu? — Tavian apontou para ele. — Funciona. Comida entra, Elion continua vivo. Ciência.

Nara sentou-se diante dos dois.

— XyrOs mandou que ele permanecesse na cama.

— XyrOs também disse que eu precisava de observação contínua — respondeu Elion.

— Precisa.

— Vocês estão observando.

— Estamos impedindo que desapareça.

Tavian parou de sorrir. A colher girou entre seus dedos. O peso da palavra chegou tarde demais. Desapareça. O templo abriu-se dentro da cabeça de Elion. Água correndo pelas pedras. A luz atravessando o corpo. Zarah no chão. Sangue. Depois, uma superfície branca. A lembrança terminava ali.

— Foi uma escolha ruim de palavra — disse Tavian.

— Foi precisa — respondeu Nara.

— Precisão também pode ser uma escolha ruim.

Passos tocaram a madeira. Elion conheceu o ritmo antes de erguer o rosto. Zarah caminhava pela margem do píer. Os cabelos estavam presos numa trança solta, com fios escapando junto ao rosto. Uma faixa nova cobria o ombro ferido. O braço permanecia próximo ao corpo durante cada passo. Os olhos dela encontraram a tigela nas mãos dele. Depois o caderno fechado. Depois o rosto.

— Você saiu sozinho.

O peito de Elion apertou. A conexão tocou a margem de sua consciência. Suave. Contida. A presença dela esperando do lado de fora. Ele ergueu a tigela.

— Trouxe comida comigo.

Tavian olhou para Nara.

— Tecnicamente, nós trouxemos.

— Ninguém perguntou — disse Elion.

Zarah parou diante dele.

— Elmira acordou e encontrou a cama vazia.

— Eu fui até o lago.

— Sozinho.

— Consigo caminhar.

— Ontem caiu ao tentar vestir a túnica.

Tavian baixou os olhos para o próprio caldo. Nara serviu água. Elion sentiu o calor subir pelo pescoço.

— Meu pé ficou preso.

— No chão?

— No tecido.

— O tecido estava no chão.

— Exatamente.

A boca de Tavian se contraiu. Zarah manteve o rosto firme, mas a pressão da presença dela diminuiu. Um passo para trás sem mover os pés. Elion odiou perceber. Ela se sentou diante dele, ao lado de Nara. Perto o suficiente para que o cheiro de lavanda alcançasse o vapor do caldo. Distante o bastante para que os joelhos não se tocassem. O beijo voltou pela boca. Sal. Fôlego curto. Os dedos dela apertando seu rosto. Ou os dedos dele? A lembrança mudou de posição.

Por um instante, Elion sentiu o ferimento no ombro. Uma dor quente que não lhe pertencia. Depois, seus próprios lábios contra os dela. Piscou. O lago retornou. Zarah observava.

— Está com dor?

— Só cansaço.

Elion respondeu rápido demais. O olhar dela permaneceu nele por mais um instante.

— XyrOs disse que sua frequência cardíaca mudou durante a noite.

Elion virou-se para Nara.

— Ele conta para todo mundo?

— Conta para quem pergunta.

— Você perguntou?

— Sim.

Tavian levantou a colher.

— Eu não perguntei. Quero que isso seja registrado.

— Você estava dormindo — disse Nara.

— Outro motivo.

Elion tomou outra colher de caldo. A mão esquerda formigava. Começava nos dedos, subia pelo pulso e desaparecia perto do cotovelo. Fechou a mão sobre a perna.

— Vamos fazer isso logo — disse Tavian.

O humor escorregou da voz. Elion deixou a colher dentro da tigela.

— Fazer o quê?

Tavian olhou para Nara. Nara olhou para Zarah. Zarah manteve os olhos em Elion.

— Falar do templo — disse ela.

A madeira do píer estalou sob uma onda. Elion procurou uma resposta segura.

— Já falamos.

— Você disse que puxou a energia — respondeu Nara. — Depois dormiu.

— Desmaiei.

— Morreu — corrigiu Zarah.

A correção atravessou o peito e parou atrás do coração. Tavian largou a colher na tigela.

— Zarah.

— Ele sabe.

— Saber e ouvir são coisas diferentes.

— Eu estava lá — disse Elion.

Ninguém respondeu. Zarah inclinou o rosto.

— Estava?

Ele apertou a borda da tigela. O templo. A energia. O corpo de Zarah no chão. A mão sobre o ferimento. Depois, luz. Talvez tivesse estado ali. Talvez tivesse saído antes do fim.

— Eu me lembro da maior parte — disse.

Nara apoiou os braços nos joelhos.

— Qual foi a última coisa?

Outra falha se abriu. Elion procurou. A marca queimando. O cristal. O rosto de Zarah. A boca dela.

— Rakthor a feriu.

— Depois — disse Zarah.

— Eu interrompi a transmissão.

— Depois.

A pressão atrás dos olhos cresceu.

— Direcionei a energia para mim.

— Depois — repetiu Nara.

Elion olhou para Tavian. O amigo mantinha as mãos fechadas em torno da tigela.

— Houve luz — disse Elion.

Tavian passou a língua pelos lábios.

— Houve.

— Vocês foram arremessados.

— Fomos.

— A estrutura cedeu.

— Parte dela.

— E então acordei.

Nara não piscou.

— Isso é tudo?

Elion sentiu a mão esquerda desaparecer. Os dedos ainda estavam ali, fechados sobre a perna. A pressão do tecido havia sumido. Moveu o polegar. A mão obedeceu. A sensação não voltou.

— É tudo que importa.

Tavian baixou a cabeça. Zarah permaneceu imóvel. A presença dela encostou outra vez na barreira de Elion. Uma pergunta sem palavras. Ele fechou a consciência. A pressão cessou. Zarah inspirou devagar. Ela havia sentido.

— XyrOs disse que seu corpo parou — falou Tavian.

Elion manteve os olhos no lago.

— Eu sei. — Ele disse que seu coração— — Eu sei. — Zarah e Aquilion— — Tavian.

O nome saiu mais duro que pretendia. O amigo recuou. Elion afrouxou os dedos em torno da tigela. — Desculpa.

Tavian assentiu, mas a colher permaneceu esquecida dentro do caldo. Nara assumiu a conversa. — Hoje ao entardecer vão concluir a pedra dos mortos.

Elion virou-se para ela. — Hoje? — Lian, Malak e Dalen — disse Nara. — O nome de Lyandra também será gravado. E o símbolo dos três Eres.

Cada nome trouxe um fragmento. Lian sorrindo perto de uma fogueira. Malak diante de uma porta quebrada. Dalen— Nada. Elion tentou outra vez. Dalen. O nome flutuava sem rosto. — Você vai? — perguntou Tavian. — Claro. — Pode descansar — disse Zarah. — Vou ao memorial. — Ninguém vai pensar menos de você se ficar. — Eu vou.

Elion respondeu antes de medir a própria voz. Nara passou os olhos por seu rosto. — O que lembra de Dalen?

O formigamento alcançou o ombro esquerdo. Elion levou a colher à boca. Vazia. Só percebeu quando a madeira tocou sua língua. Tavian ergueu os olhos. Nara esperou. — Ele lutou conosco — respondeu Elion. — Onde?

O lago apertou-se num corredor estreito. Dalen. Pedra. Gritos. Talvez Syntheris. Talvez Aethel. — Na guerra — disse.

Nara permaneceu em silêncio. Tavian mexeu-se ao lado dele. — Nara, para. — Ele não lembra. — Eu lembro.

— Então diga.

O coração bateu. Um. Dois. Pausa. O ar ficou preso no peito. Zarah se inclinou.

— Elion.

— Dalen morreu protegendo os outros.

Dalen morrera protegendo os outros — descrição ampla o bastante para quase qualquer morto daquela guerra. O olhar de Nara confirmou. Suor frio subiu sob a túnica de Elion.

— Minha memória está confusa — admitiu. — Só isso.

Zarah soltou o ar devagar.

— Quanto está confusa?

— Os últimos momentos.

— Desenhou alguma coisa hoje? — perguntou ela.

Elion olhou para o caderno. Tarde demais. Nara seguiu o movimento.

— Mostre.

— É só um desenho.

— Então mostre.

Elion colocou a tigela no píer e segurou o caderno sobre as pernas. O carvão manchava a borda. Um sol. Depois dois. Depois a sombra do terceiro círculo apagado. Se abrissem, veriam.

— Não terminei.

— Não precisa estar terminado — disse Zarah.

— Mais tarde.

A mesma palavra usada quando ela pedira para ver a marca. Mais tarde. O olhar de Zarah desceu ao peito dele.

— A marca também fica para mais tarde?

Tavian levantou-se.

— Talvez eu devesse verificar a reconstrução.

Nara segurou a barra da túnica dele.

— Sente.

— Eu posso ajudar em algum lugar.

— Pode ajudar aqui.

Elion passou a mão direita sobre a gola. A pele sob o tecido pulsava. Violeta. Quente. Linhas finas pareciam se espalhar ao redor da marca sempre que o coração falhava.

— Está estável — disse.

Zarah aproximou a mão. Parou antes de tocá-lo.

— Posso ver?

O beijo voltou. Desta vez pelos olhos dela. A própria face surgiu entre mãos ensanguentadas. O rosto imóvel. A boca sem cor. A imagem desapareceu. Elion segurou o pulso de Zarah antes que ela alcançasse a gola. O movimento assustou os dois. A pele dela estava quente. A conexão vibrou sob o contato. Medo. Culpa. Uma vontade quase dolorosa de aproximar-se. Elion soltou-a. — Depois.

Zarah recolheu a mão. — Certo.

A serenidade da voz tornou o espaço entre eles maior. Tavian olhou para o lago. — Existe outra coisa.

Nara fechou os olhos por um instante. — Tavian. — Já estamos todos sofrendo. Podemos sofrer com eficiência.

Elion sabia. O beijo. Zarah manteve o rosto voltado para ele, mas os dedos haviam se fechado sobre a própria faixa. — Eu lembro — disse Elion.

Elion respondeu antes que a pergunta viesse. Tavian ficou quieto. Nara desviou os olhos. Zarah sustentou os dele. — Lembra?

Elion buscou a boca dela dentro da memória. Sal. Calor. O ombro ferido. Mãos em seu rosto. Qual corpo tremia? Qual coração acelerava? — Sim.

Dizer aquilo arranhou a garganta. Zarah assentiu uma vez. A presença dela recuou. Elion esperava alívio. Recebeu vazio. — Então estamos bem? — perguntou Tavian.

Nara olhou para ele. — Essa foi a pior pergunta que fez hoje. — E concorre com muitas.

Zarah levantou-se. — Vou avisar Elmira que o encontramos.

Encontramos. Como se ele fosse um objeto perdido entre a casa e o lago. Elion segurou a borda do píer. — Zarah.

Ela parou. O pedido de desculpas ficou preso atrás dos dentes. A verdade também. Esqueci um sol. Não lembro o rosto de Dalen. Meu coração some. Sua memória está entrando na minha. — Vejo você no memorial — disse.

Zarah inclinou a cabeça. — Se estiver bem. — Estou.

O silêncio dela durou um batimento. Depois dois. — Certo.

Ela acreditou. Ou escolheu acreditar. Zarah caminhou pelo píer. Nara acompanhou-a após recolher a jarra. Tavian permaneceu ao lado de Elion. — Quer que eu fique? — Preciso terminar o desenho. — Posso ficar sem falar.

Elion olhou para ele. Tavian ergueu as mãos. — Consigo por períodos curtos. — Vá ajudar Nara. — Ela não precisa. — Você precisa.

O sorriso surgiu cansado. — Provavelmente.

Tavian deu dois passos e voltou-se. — Você vai mesmo ao memorial? — Vou. — E está bem?

A mão esquerda permanecia muda. O coração havia perdido outra batida. Elion abriu o caderno sobre os joelhos. — Estou.

Tavian relaxou os ombros. A confiança no rosto dele doeu mais que qualquer desconfiança. — Então até mais.

Os passos se afastaram. Elion permaneceu sozinho no píer. O desenho ocupava a página. Dois sóis agora. O terceiro borrão entre eles. Passou o polegar sobre a mancha até rasgar o papel. O coração bateu. Um. Dois. Três. Pausa. A mão esquerda abriu-se sobre a perna. Elion tentou fechá-la. Os dedos continuaram estendidos. O lago perdeu o som. As marteladas sumiram. O ar entrou pela boca e parou antes dos pulmões. Levante. Se alguém o encontrasse sentado, fariam perguntas.

Zarah voltaria. XyrOs o prenderia à cama. Kaelar saberia. Elion apoiou a mão direita no píer. As pernas receberam o peso. O mundo inclinou-se. Ele ficou de pé. Um passo bastaria para provar que o corpo ainda lhe pertencia. O pé direito avançou. A madeira desapareceu sob ele. O lago virou uma faixa branca. — Elion?

A voz de Zarah veio da margem. Ele abriu a boca. Estou bem. O coração bateu uma vez. Forte. A marca queimou sob a pele. Depois, o corpo esqueceu o que vinha a seguir.

Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio

Cena 2 — O corpo que se esqueceu

Zarah correu antes de pensar. Elion caiu de lado, o joelho dobrando sob o corpo. A testa descia para a madeira. Ela o alcançou pelo ombro. O peso atravessou seu braço ferido. A dor abriu-se sob a faixa, quente e funda, mas o rosto dele parou a poucos dedos do píer.

— Elion.

Os olhos permaneciam abertos. O lago ocupava as pupilas. Dois sóis quebrados em água escura.

— Olhe para mim.

Nenhum movimento. Zarah passou o braço por trás da cabeça dele e o deitou sobre a madeira. O peito continuava imóvel. Tavian chegou primeiro.

— O que aconteceu?

— Nara, o pulso.

Nara caiu de joelhos ao lado deles e encostou dois dedos no pescoço de Elion.

— Está fraco.

— Respirando?

Nara olhou para o peito. Zarah já sabia. O vínculo entre os dois continuava ali, mas o fluxo havia perdido direção. Energia demais corria sob a pele dele. Cada impulso buscava uma parte diferente do corpo. Coração. Pulmões. Músculos. Memória. Tudo chamava ao mesmo tempo. Nada respondia junto.

— Elion.

Zarah segurou o rosto dele. A pele estava fria junto às têmporas e quente demais sobre a marca. Violeta atravessou a túnica. O brilho subiu pelos dedos dela. O coração bateu. Uma pancada forte. Depois três rápidas. Depois silêncio. Elion puxou o ar. O som veio úmido, arrancado do fundo do peito. Nara afastou os dedos do pescoço.

— O pulso sumiu.

— Ainda está aqui.

Tavian olhou para Zarah.

— Onde?

Ela pressionou a mão sobre a marca. A energia circulava. O corpo falhava em recebê-la. O peito de Elion subiu outra vez. O coração continuou parado.

— Isso é possível? — perguntou Tavian.

Zarah fechou os olhos. A conexão tocou sua mente. Café. Chuva. Metal dobrando. Uma menina apertando uma criatura de pano contra o peito. Depois o lago. O desenho rasgado. A palavra Malak. Tudo se misturou e se rompeu. Ela tentou encontrar Elion entre as imagens. A dor atravessou seu ombro. O templo surgiu inteiro. O altar. O corpo dele imóvel. A lasca de cristal em sua mão. A voz de Kaelar entrando pela Árvore. Você será o caminho. A energia de Aquilion descendo por seus ossos.

Zarah soltou o rosto de Elion. O ar voltou com gosto de sangue.

— O que viu? — perguntou Nara.

— A reconstrução.

— Ele está lembrando?

— Eu estou.

A própria resposta assustou Zarah. A lembrança viera do vínculo ou de dentro dele? Elion arqueou as costas. A marca queimou sob a túnica. As tábuas estremeceram. A água junto ao píer recuou e voltou numa onda curta. Tavian segurou as pernas dele.

— Está convulsionando.

Zarah acompanhou o corpo. O ombro endureceu. Depois a mão. Depois o abdômen. Cada parte reagia sozinha.

— O corpo perdeu a sequência.

— O que isso significa? — perguntou Tavian.

— Significa que ele está tentando viver em partes.

Nara ergueu o rosto para a aldeia.

— XyrOs!

A voz atravessou a margem.

— XyrOs!

O brilho cinza-prateado desceu entre as casas. A esfera chegou girando, placas abertas, feixes já voltados para Elion.

— Afaste-se.

Zarah permaneceu.

— Fale enquanto analisa.

Os feixes percorreram o corpo.

— Atividade cardíaca intermitente. Respiração sem sincronização. Respostas motoras dispersas. A marca está utilizando energia externa para compensação.

As folhas junto ao píer começaram a perder cor. O verde esmaeceu a partir das bordas. Uma flor fechou as pétalas. Um inseto caiu sobre a água. Zarah olhou para o lago.

— Está drenando tudo ao redor. — Correto. — Pare. — A marca opera por preservação. — Então faça preservar sem matar o lago. — Não possuo controle sobre ela.

Tavian apertou as pernas de Elion. — Quanto tempo ele tem?

XyrOs girou uma das placas. — A previsão varia. — Dê um número. — Entre dezessete minutos e três horas.

Tavian ficou imóvel. Nara olhou para Zarah. A escolha já estava vindo. Zarah sentiu antes de ouvi-la. — A Árvore — disse Nara.

O peito de Zarah apertou. Elion havia despertado com medo de Kaelar. Havia escondido os sintomas. Havia fechado o vínculo quando ela tentou entrar. Agora a própria energia devorava a margem do lago. — Chame Aquilion — disse ela.

Tavian ergueu a cabeça. — Elion pediu que não—

A mão de Elion agarrou o pulso de Zarah. Os dedos mal tinham força. O toque abriu um corredor de imagens. Uma porta branca. Alguém chorando atrás dela. O cheiro de pão queimando. O som de uma mulher dizendo Miguel. — Elion.

Os olhos dele moveram-se sob as pálpebras. — Fique comigo.

A boca se abriu. — Não…

Zarah aproximou o ouvido. — O quê? — Não… deixe…

A respiração falhou. Tavian inclinou-se. — Não deixe o quê?

Elion apertou o pulso dela. — Árvore.

A palavra saiu em fragmentos. — Kaelar…

Os dedos soltaram. Zarah manteve o pulso dele contra a própria mão. Nara esperava. Tavian esperava. XyrOs continuava medindo. Elion havia dito não. A palavra permanecia inteira, mesmo depois que o corpo falhara.

— Ele recusou — disse Tavian.

Zarah olhou para o rosto dele. Três dias antes, aquele rosto estava frio sobre o altar. Ela havia aceitado a ordem de Kaelar. Havia aberto o próprio corpo para Aquilion. Havia puxado Elion de volta. Nunca perguntara. O tempo arrancara essa escolha dos dois. Agora o tempo fazia o mesmo.

— Recusou Kaelar — disse Zarah.

— E a Árvore — respondeu Tavian.

— Recusou o que teme.

— Isso não torna a recusa menor.

A frase feriu porque era verdade. Zarah fechou os dedos sobre a mão de Elion.

— E deixá-lo morrer respeita alguma escolha?

Tavian desviou os olhos. Nara respondeu:

— Não.

A sombra de Aquilion atravessou o lago. As asas desceram sobre a aldeia, levantando poeira, folhas e gritos. As garras tocaram o solo além das casas. O vínculo entre Zarah e o Guardião chegou antes de seus passos. Peso. Urgência. Uma decisão já pronta. Aquilion caminhou até o píer. Os moradores abriram espaço. A voz dele entrou na mente de todos.

“Ele não deveria ter saído sozinho.”

Zarah levantou-se.

— Ele não é prisioneiro.

“Também não está curado.”

— Você sabia que isso poderia acontecer?

O Guardião olhou para Elion. As penas de bronze junto ao pescoço se ergueram com o vento.

“Kaelar considerou a instabilidade possível.”

A dor no ombro de Zarah pulsou.

— Considerou.

“Sim.”

— E ninguém contou a Elion.

“Não havia certeza.”

— Havia medo suficiente para observá-lo.

Aquilion manteve o olhar sobre ela.

“Medo não é diagnóstico.”

— Para Kaelar, sempre foi motivo suficiente para esconder alguma coisa.

O Guardião abriu as asas pela metade. “O transporte poderá separar a consciência do corpo.”

XyrOs girou em direção a ele. — Permanecer causará falência progressiva. “Posso estabilizar parte do fluxo aqui.” — Por quanto tempo? — perguntou Zarah.

Aquilion permaneceu em silêncio. Ela entendeu. — Abaixe-se. “Zarah.” — Abaixe-se. “Ele pediu que não fosse levado.” — Ele também pediu ajuda quando segurou meu pulso.

Tavian franziu a testa. — Ele disse isso?

Zarah olhou para ele. A frase não havia sido dita. A mão apertando. A porta branca. A voz perdida. Talvez ela estivesse transformando desespero em permissão outra vez. — Não sei — admitiu.

A palavra custou mais que o ombro aberto. Aquilion aproximou o rosto. “Então escute o que sabe.”

Zarah olhou para Elion. Sabia que o corpo estava falhando. Sabia que a marca drenava o lago. Sabia que Kaelar esconderia parte da verdade. Sabia que Elion temia voltar à Árvore. Sabia que a morte não deixaria espaço para escolha futura. — Sei que ele pode me odiar depois.

Tavian soltou o ar. — Essa parte parece provável.

Nara lançou-lhe um olhar. — Continuar vivo deixa essa possibilidade — disse Zarah.

Aquilion baixou o corpo. Ela se ajoelhou ao lado de Elion e passou o braço dele sobre os próprios ombros. A dor rompeu a faixa. Calor espalhou-se pela manga. Nara segurou o outro lado. — Está sangrando. — Segure o peso.

Elion gemeu quando o ergueram. A marca brilhou. O verde das plantas junto ao píer desapareceu em uma faixa larga. Zarah quase perdeu as pernas. Tavian tomou parte do peso. — Eu subo também.

Nara segurou o braço dele.

— Fique.

— Por quê?

— A aldeia precisa saber onde ele foi.

— Você pode dizer.

— Você fala mais.

— Finalmente alguém reconhece meu valor.

A voz quebrou no final. Nara apertou o braço dele.

— Fique com eles.

Tavian olhou para Elion.

— Tragam ele de volta.

Zarah encontrou os olhos do amigo. Promessa nenhuma atravessou sua boca. Aquilion levou Elion junto à base do pescoço. XyrOs prendeu duas placas ao redor do peito dele, sustentando os ritmos dispersos. Zarah subiu atrás. Nara veio por último. As asas se abriram. O vento arrancou o píer debaixo deles. A aldeia diminuiu. Telhados quebrados. Madeira nova. Pessoas olhando para cima. A faixa de vegetação pálida junto ao lago marcava o lugar onde Elion havia caído. Zarah manteve a mão sobre a dele.

A conexão pressionava sua mente. Frágil. Aberta demais. “Preciso que o guie”, disse Aquilion.

— Não vou sustentá-lo.

“Guie.”

— Foi assim que começou no templo.

“Agora você sabe o risco.”

— Saber o risco não torna a escolha dele minha.

Aquilion bateu as asas. A floresta aproximou-se. O coração de Elion parou. XyrOs emitiu um som agudo.

— Interrupção.

Zarah apertou a mão dele.

— Elion.

Nenhuma resposta.

— Eu não vou puxar você.

A imagem da porta branca surgiu outra vez. Dessa vez, aberta. Atrás dela havia uma cozinha. Uma mulher junto à mesa. Um homem rindo. Duas crianças. Miguel estava entre eles, de costas para Zarah. Ela sentiu o impulso de chamá-lo. Conteve.

— Vou deixar o caminho aberto.

O corpo de Elion respirou. XyrOs reposicionou as placas.

— Função restabelecida.

A dor no ombro de Zarah explodiu. Sangue escorreu pelas costas. Nara segurou sua cintura.

— Está perdendo força.

— Ainda consigo ficar sentada.

— Isso não responde.

— Responde o suficiente.

O voo seguiu. Cada batida das asas trazia uma nova falha. Os dedos de Elion esfriavam. Depois queimavam. Os lábios perdiam a cor. O coração acelerava até o corpo tremer e parava logo depois. XyrOs descarregava energia cinza-prateada sobre o peito. O próprio brilho diminuía a cada intervenção. Zarah mantinha a passagem aberta. Miguel aparecia em fragmentos. A mãe. A estrada. A coelha de pano. Depois Zarah. O lago. Lavanda. O nome dela surgia entre as lembranças de Terranox.

O que havia atravessado durante a reconstrução? Quanto daquela ligação pertencia a Elion? Quanto pertencia ao desespero dela? A Floresta Milenar surgiu abaixo. Os galhos fecharam-se sobre o caminho. Aquilion reduziu a altura.

“A Árvore sente o que ele carrega.”

— E tem medo?

“Está se protegendo.”

A marca de Elion lançou um pulso violeta. As copas estremeceram. Folhas giraram no ar. A passagem permaneceu fechada. Zarah ergueu o rosto.

— Kaelar!

O vento puxou o nome.

— Ele está morrendo por causa de uma escolha sua!

As árvores ficaram imóveis.

— Abra o caminho!

Raízes ergueram-se entre as copas. Troncos se inclinaram. Cipós recolheram-se. Uma abertura estreita surgiu até a clareira central. Aquilion mergulhou. A Árvore Milenar ocupava o centro da floresta, larga como uma fortaleza, veios dourados correndo sob a casca. As garras tocaram o solo. Elion arqueou o corpo. XyrOs abriu todas as placas.

— Três sistemas em falha simultânea.

Nara desceu primeiro. Zarah tentou acompanhá-la. As pernas cederam. A mão de Nara segurou seu braço antes da queda.

— Eu consigo.

— Continue dizendo isso até acreditar.

Aquilion colocou Elion sobre a grama. A cor desapareceu ao redor do corpo. A marca drenava a clareira. Zarah caminhou até o tronco.

— Abra.

A Árvore permaneceu fechada. A voz de Kaelar veio pelas raízes. “Ele não pode entrar nesse estado.” — Então venha até ele. “A marca está consumindo a rede.” — Desative. “Preciso de contato direto.”

Zarah encostou a mão ensanguentada na casca. A luz dourada reagiu sob sua palma. — Ele morreu porque você o preparou para carregar algo que não compreendia. “Zarah—” — Voltou porque você me usou como caminho.

A dor no ombro desceu até a mão. O sangue entrou nas fissuras da casca. — Agora o corpo dele está se desfazendo e você continua escondido.

Aquilion aproximou-se. “Controle sua dor.”

Zarah virou o rosto. — Minha dor é a única coisa aqui que não tentou controlar.

A floresta silenciou. Ela voltou os olhos para a Árvore. — Venha olhar para o que fez.

A casca se abriu. Como uma ferida. Luz dourada vazou pela fenda. Uma forma surgiu dentro dela. Ossos cobertos de claridade. Músculos. Pele. Cabelos brancos. Um pé tocou a terra. Depois o outro. Kaelar atravessou o tronco. A materialização oscilou. Ele apoiou a mão na Árvore. Veios dourados pulsavam sob a pele de seu rosto e desciam pelas mãos. Respiração entrou em seus pulmões. O peito se moveu. Carne. Zarah havia ouvido sua voz por raízes, projeções e sonhos. Agora os pés dele afundavam a grama.

Kaelar caminhou até Elion e se ajoelhou. Dois dedos tocaram a marca. O violeta apagou. As plantas ao redor recuperaram a cor. O peito de Elion permaneceu imóvel. Kaelar olhou para Zarah. A voz saiu baixa, presa a um corpo humano. — Solte a conexão.

Ela apertou a mão de Elion. — Se eu soltar, ele cai.

Kaelar pousou a outra mão sobre o coração dele. — Ele já está caindo.

Os olhos verdes encontraram os dela. — E, desta vez, levará você junto.

Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio

Cena 3 — Sete horas

— Solte a conexão.

Os dedos de Zarah apertaram a mão de Elion. O calor havia desaparecido da pele dele. Restava uma umidade fria entre as palmas, o peso morto dos dedos e um fio de presença esticado dentro dela. Fino. Tenso. Prestes a romper.

— Se eu soltar, ele cai.

Kaelar mantinha uma mão sobre o coração de Elion. Veios dourados pulsavam sob a pele do Guardião, descendo do rosto até o punho apoiado no peito dele.

— Ele já está caindo.

A voz humana de Kaelar feria mais que o eco das raízes. Tinha fôlego. Peso. Uma boca capaz de esconder a verdade.

— E você está caindo junto — completou.

O peito de Zarah contraiu-se. Por um instante, o ar recusou passagem. Ela respirou outra vez. O corpo de Elion respondeu com uma inspiração curta, arrancada. O vínculo puxava. O pulmão dele exigia o dela. O coração, parado sob a mão de Kaelar, buscava o ritmo dentro de seu peito.

— O que está acontecendo comigo? — perguntou.

— Seu corpo começou a completar as funções dele.

— Porque você me transformou em caminho.

— Porque se recusou a deixá-lo partir.

A frase entrou pelo ombro ferido. Calor espalhou-se sob a faixa. O sangue escorreu pela pele e alcançou o cotovelo. Zarah olhou para Elion. Os lábios estavam pálidos. A marca violeta permanecia apagada sob os dedos de Kaelar. No templo, havia escolhido por ele. Escolhido vida. Escolhido retorno. Escolhido acreditar que abrir os olhos bastava. A mão de Elion apertou a dela. Um movimento fraco. Talvez espasmo. Talvez pedido.

— Elion?

Os olhos continuaram fechados. Uma imagem atravessou o vínculo. A cozinha de Terranox. Uma mulher diante de uma mesa. O cheiro de café queimado. Miguel virando o rosto. A imagem desapareceu quando Kaelar pressionou o peito dele.

— Solte agora — disse o Guardião.

Zarah abriu os dedos. A conexão resistiu. Uma raiz dentro de sua cabeça sendo arrancada. Dor branca atravessou seus dentes. A cozinha voltou. A mulher ergueu a mão. Miguel deu um passo para ela. Zarah puxou a consciência para trás. O fio rompeu. Elion parou de respirar. O vazio entrou no lugar da presença. Zarah tombou sobre um joelho. Nara segurou seu braço.

— Zarah. — Elion.

Kaelar encostou a segunda mão no peito dele. Uma descarga dourada atravessou a túnica. O corpo arqueou. O coração bateu. A pancada correu pelo chão e subiu pelas pernas de Zarah. Elion inspirou. Uma vez. Outra. Kaelar retirou uma das mãos. Fissuras douradas surgiram no dorso de seus dedos. — Levem-no para dentro.

Raízes emergiram ao redor do corpo. A terra abriu passagem. Fibras largas se entrelaçaram sob as costas, as pernas e a cabeça de Elion. Quando o ergueram, o braço dele caiu para o lado. Zarah levantou-se. A clareira girou. Nara firmou a mão em sua cintura. — Você perdeu sangue. — Depois.

Kaelar bloqueou a passagem para a Árvore. — Você fica.

Zarah parou diante do braço estendido. — Tire. — A câmara amplificará qualquer resíduo do vínculo. — Então retire o resíduo. — Você não sabe separar presença de vontade. — Ensine.

As raízes carregavam Elion para a abertura no tronco. A luz dourada engolia seus pés. — Kaelar.

O Guardião manteve o braço. Zarah segurou o pulso dele. Calor. Pele. Batimento. A materialização possuía um coração. A raiva encontrou forma. — Você me usou para trazê-lo de volta.

A luz sob a pele de Kaelar oscilou. — Zarah— — Colocou o corpo dele nas minhas mãos. Mandou que eu o reconstruísse. Agora quer me afastar porque descobriu que alguma coisa saiu errada.

Os olhos verdes se estreitaram. — A presença de alguém amado pode salvar. Também pode apagar a fronteira de quem está sendo salvo. — E o seu controle preserva fronteiras?

A raiz desapareceu com Elion dentro da Árvore. Zarah soltou Kaelar e passou sob o braço dele. — Eu entro. — Esta decisão cobra de você.

Ela tocou o ombro molhado de sangue. — Já começou a cobrar.

Kaelar virou-se. Nara tentou segui-los. Raízes desceram entre ela e a entrada. — Zarah!

A abertura diminuía. Zarah encontrou os olhos da amiga. — Fique com Aquilion. — Você mal consegue andar. — Consigo até ele acordar. — Isso não é uma medida. — É a única que tenho.

As raízes se fecharam. A voz de Nara desapareceu. O interior da Árvore pulsava. O corredor descia sob uma luz dourada que corria pelas paredes em ondas lentas. O chão cedia sob os pés de Zarah e voltava a endurecer, ajustando-se ao peso. À frente, Elion flutuava sobre o leito de raízes. XyrOs pairava acima dele. Feixes prateados atravessavam seu peito, o pescoço e a cabeça. — Frequência cardíaca ausente — disse a esfera.

Kaelar acelerou o passo. A mão dele deslizou pela parede. A luz aumentou sob seus dedos e se apagou logo depois que passavam. Zarah contou os passos. Doze. O coração de Elion bateu. Dez. Parou. Sete. Voltou. — Quanto tempo entre as batidas? — perguntou. — O intervalo aumenta. — Quanto? — A última interrupção durou onze respirações suas.

O próprio peito pareceu apertado demais. — Use outra medida. — Você é a referência ativa mais próxima.

Kaelar não olhou para ela. — Acelere — disse a XyrOs. — Minha velocidade não altera a função cardíaca. — Então preserve o cérebro. — Estou priorizando a continuidade da consciência.

Zarah ouviu a palavra. Continuidade. — Existe risco de ela se romper?

XyrOs guardou silêncio por tempo demais. — Existe.

A cavidade surgiu no fim do corredor. Uma semente aberta ocupava o centro. Raízes brancas formavam duas paredes curvas em torno de uma superfície translúcida. Líquido claro pulsava dentro dela. A raiz depositou Elion no centro. O líquido subiu pelas pernas. — O que é isso? — perguntou Zarah. — Seiva de suporte — respondeu Kaelar. — A Árvore assumirá as funções que o corpo perdeu.

O líquido alcançou o peito. Depois o pescoço. Zarah avançou. — Ele não está respirando. — A câmara fará a troca.

O rosto de Elion desapareceu sob a seiva. Nenhuma bolha saiu de sua boca. Zarah tocou a superfície. O frio entrou pelas pontas dos dedos. Fios dourados nasceram nas paredes da semente e se estenderam até o corpo. Um alcançou o peito. Outro a base do crânio. Três se espalharam pela coluna. Elion arqueou-se. A boca abriu sob o líquido. Zarah pressionou as mãos contra a câmara. — Está machucando-o. — Está procurando o ritmo — disse Kaelar. — Ele não possui um?

O Guardião olhou para o corpo submerso. — Possui mais de um.

A resposta gelou a língua de Zarah. — Explique. — Depois que estiver estável. — Explique agora.

Um dos fios brilhou. O coração de Elion bateu. A luz percorreu o peito e seguiu para a Árvore. Outro fio acendeu. Os pulmões se expandiram. Um terceiro alcançou a cabeça. A marca violeta surgiu sob a túnica. O dourado da câmara avançou em direção a ela. As duas luzes se tocaram. A superfície rachou. Elion convulsionou. Zarah recuou um passo. Kaelar colocou as mãos na semente.

Raízes envolveram a estrutura. A rachadura fechou. Uma fissura dourada abriu- se na têmpora dele. Zarah levou a mão ao próprio rosto. A dor veio refletida pela conexão rompida. Fantasma de vínculo. Kaelar cambaleou. A Árvore apagou parte da luz da sala para sustentá-lo. — O corpo dele rejeitou a câmara — disse Zarah. — Rejeitou a ordem. — Qual ordem?

XyrOs girou junto à superfície. — A matéria de Elion responde à rede de Valtoria. Parte de sua organização permanece vinculada a Terranox. — Parte? — O corpo foi reconstruído aqui. A referência de origem permanece externa.

Zarah procurou o rosto dele sob o líquido. Na cozinha, a família o chamava Miguel. À margem do lago, todos o chamavam Elion. A mesma boca. Os mesmos olhos. Uma carne refeita entre dois mundos. — Ele está dividido? — Uma continuidade — respondeu XyrOs. — Duas referências corporais.

Kaelar fechou os olhos. A fissura em sua face continuava acesa. — A câmara mantém as funções. Não consegue reconciliá-las. — Então quem consegue?

Metal raspou atrás de Zarah. Uma passagem abriu-se na parede. Escuridão. Cheiro de óleo, fogo apagado e pedra quente. Um homem atravessou carregando uma caixa comprida. As mãos vieram primeiro. Prata movia-se sob a pele da direita, reunindo-se e separando-se em pequenas manchas. Linhas negras cobriam a esquerda até o pulso. Os cabelos cinzentos estavam presos atrás da cabeça. Tiras de couro, metal opaco e fibras vivas sustentavam sua túnica. Os olhos tocaram Elion. Depois Kaelar. — Você abriu um caminho até minha oficina. — Precisava de você — respondeu Kaelar. — Uma parede também precisava continuar inteira.

O homem aproximou-se da câmara. — Thalorion — disse Kaelar.

O Artífice tocou a superfície com a mão prateada. As manchas correram para a ponta dos dedos. Elion se contraiu. Thalorion retirou a mão. — Ele morreu.

O estômago de Zarah afundou. — Voltou. — O corpo voltou.

Ela aproximou-se. — Ele também.

Thalorion encontrou seus olhos. — Quem é você? — Zarah. — Para ele.

A pergunta entrou sem aviso. — A pessoa que o trouxe de volta. — Isso diz o que fez. Perguntei quem é.

Zarah olhou para Elion. O beijo. O altar. A mão dele segurando a sua no píer. A palavra Kaelar morrendo em sua boca.

— Alguém que ele reconhece.

Thalorion manteve o olhar.

— E o que deseja?

— Que ele viva.

A boca do Artífice endureceu.

— Desejo perigoso.

— Está desperdiçando tempo.

— Estou descobrindo quem tentará me impedir quando salvar significar destruir alguma coisa.

Kaelar aproximou-se.

— Ela participará.

Zarah virou-se para ele.

— Eu decidirei isso.

— Então decida — disse Thalorion.

A câmara emitiu um som grave. A marca violeta de Elion escureceu. Um fio dourado partiu-se. XyrOs abriu as placas.

— Perda de atividade neural em progressão.

A cozinha de Terranox atravessou Zarah outra vez. A mulher se virava. Miguel estava perto da porta. Ele dava um passo. A imagem apagou.

— Eu fico — disse Zarah.

Thalorion colocou a caixa no chão.

— Condições?

— Nenhuma decisão sobre o corpo dele será escondida de mim enquanto ele não puder responder.

Kaelar abriu a boca. Zarah continuou:

— Não darei consentimento por Elion. Não permitirei que vocês tratem silêncio como aceitação.

Thalorion olhou para Kaelar.

— Aceito.

— Ela não possui autoridade—

— Nem você — cortou Zarah.

A voz saiu baixa. O ombro ardia. A mão tremia. Ela manteve os olhos no Guardião. Kaelar observou Elion dentro da câmara. A fissura em seu rosto avançou até a mandíbula.

— Aceito.

Thalorion ajoelhou-se diante da caixa. As linhas negras da mão esquerda penetraram na tampa. O material abriu-se como pele. Dentro, uma lâmina prateada repousava sobre fibras escuras. Fina. Curva. Viva. Sete formas suaves marcavam a superfície. Θ. Ψ. Π. Λ. Φ. Ξ. Δ. Zarah reconheceu os Símbolos. Nenhum carregava luz.

— Horkonys? — perguntou Kaelar.

— Matéria — respondeu Thalorion. — O nome virá depois da promessa.

Ele retirou a lâmina. A prata curvou-se sobre seus dedos.

— O que fará com ele? — perguntou Zarah.

— Conterá o excesso. Abrirá caminhos entre intenção e corpo.

— Vai curá-lo?

— Não.

A palavra veio limpa.

— Vai mantê-lo dependente?

Thalorion aproximou a lâmina da câmara. A prata inclinou-se em direção a Elion.

— Talvez.

— Preço.

O Artífice pousou Horkonys sobre o próprio braço. A prata envolveu sua pele. As manchas móveis da mão direita correram para o metal. Thalorion travou a mandíbula. Parte da prata sob sua pele apagou. A lâmina ganhou brilho. Ele a retirou. Os dedos tremiam.

— Para mim, matéria viva.

Apontou para Elion.

— Para ele, dor, limitação e vínculo.

— Vínculo com quem?

— Com o próprio impulso.

— Ele já perdeu controle do corpo.

— Horkonys converterá em resposta física o que ainda resta da vontade dele.

— E se interpretar errado?

Thalorion olhou para ela.

— Então o salvará da maneira errada.

O medo encontrou espaço sob as costelas.

— Pode ser retirada?

— Quando ele acordar, poderá escolher.

— E se a retirada o matar?

— A escolha continuará sendo dele.

Zarah olhou para Kaelar.

— Ouviu?

O Guardião manteve o rosto voltado para a câmara.

— Ouvi.

Thalorion aproximou a lâmina da superfície.

— Preciso de você.

— Para quê?

— A consciência dele se desloca sempre que a Árvore assume o corpo.

Zarah sentiu o frio subir pelos braços.

— Desloca para onde?

— Descubra.

A primeira hora terminou quando XyrOs disse:

— Sessenta frações completas da referência de Elion.

O tempo já havia perdido sentido para Zarah. A câmara apagou. Fios brancos desenharam ossos sob a pele dele. Thalorion abriu Horkonys sobre a superfície. A prata dividiu-se em filamentos. Alguns brilharam dourados. Outros escureceram até o violeta quase preto.

— Atrum — disse Zarah.

— Dreno — respondeu Thalorion.

— Dentro dele?

— Retirando dele.

Os filamentos escuros tocaram a marca. O excesso violeta saiu do peito de Elion e correu para a prata. A sala perdeu calor. Folhas pequenas entre as raízes murcharam. O dourado voltou por outros fios, conduzido para o coração, os pulmões e a cabeça. Nada permanecia inteiro durante a troca. A Árvore pagava. Thalorion pagava. Elion continuava imóvel. Na segunda hora, imagens apareceram no líquido. Uma mesa. A mulher da cozinha. Uma estrada molhada. O interior de uma máquina de Terranox.

Duas crianças no banco de trás. Depois Valtoria. O Lago Azul. Zarah oferecendo Lactenys. Elion tentando ficar em pé pela primeira vez.

— O que são? — perguntou.

XyrOs aproximou-se.

— Memórias de reconhecimento.

— Por que estão aqui?

— O corpo procura a consciência pela continuidade.

Zarah tocou a câmara. As imagens correram. A batalha. O templo. Rakthor. O ferimento em seu ombro. Depois o vazio. O momento entre o beijo e o despertar havia desaparecido.

— Falta uma parte.

Kaelar desviou os olhos. Zarah percebeu.

— O que falta?

— A morte não deixa memória no corpo — disse ele. — Elion lembra de coisas que o corpo não viveu. — Fragmentos permanecem na consciência. — Então por que nenhum fragmento daqui?

Kaelar permaneceu em silêncio. A confirmação do silêncio queimou. Na terceira hora, Thalorion abriu a câmara. O líquido permaneceu suspenso ao redor de Elion. Horkonys, uma canopla simbiótica de prata, tocou seu antebraço esquerdo. O artefato espalhou-se sobre a pele, fino, moldando-se do punho até abaixo do cotovelo. Seguiu cada tendão. Cada curva. Os sete Símbolos repousaram sobre a superfície. Apagados. Elion moveu os dedos. Zarah deu um passo. — Ele acordou? — O corpo respondeu — disse Thalorion. — Elion?

Os dedos fecharam-se. A cabeça virou na direção da voz dela. O coração de Zarah acelerou. Thalorion segurou a prata. — Não confunda direção com presença.

Os filamentos avançaram sob a superfície de Horkonys. Pararam junto ao pulso. — Por que parou? — perguntou Kaelar. — Procura aceitação. — Ele está inconsciente. — Exatamente.

O coração de Elion cessou. A câmara contraiu-se. As raízes ao redor bateram juntas. O coração voltou no ritmo da Árvore. Lento. Profundo. Dourado. Zarah reconheceu a diferença. Aquele ritmo pertencia ao tronco sob seus pés. — Tire a Árvore dele. — Ela está mantendo-o vivo — disse Kaelar. — Esse coração é dela. — Por enquanto.

Zarah abriu uma passagem mínima na conexão. Uma fresta. A presença de Elion surgiu distante, cercada pelas lembranças de Terranox. O pai rindo. A mãe à mesa. João apontando pela janela. Maria apertando Violeta. Miguel estava ali. O corpo continuava batendo no ritmo da Árvore. Zarah fechou a passagem. — Ele não está guiando nada.

Kaelar aproximou-se. — Ainda. — E se o corpo aprender a obedecer antes que ele volte?

O Guardião guardou a resposta. Na quarta hora, o frio tomou seus dedos. A câmara drenava calor da sala. A respiração de Zarah formava névoa. O ombro havia perdido sensibilidade. O sangue continuava descendo sob a túnica, lento e quente. XyrOs reduziu o brilho. Kaelar permanecia junto à parede, alimentando a Árvore. As fissuras douradas atravessavam seu pescoço.

Thalorion pressionava Horkonys com as duas mãos. A prata sob sua pele havia diminuído até o punho. — Ela não encontra a vontade dele — disse.

Zarah aproximou-se. — Eu encontro. — Ofereça direção. — É o que faço. — Deixe espaço para ele recusar.

A frase prendeu seus pés. No templo, ela chamara. Volte. Fique. Viva. Ordens lançadas a um morto. Zarah tocou a câmara. — Elion.

Silêncio. — Não precisa acordar.

A marca violeta oscilou. — Só precisa escolher onde termina.

Uma vibração atravessou a seiva. As imagens voltaram. O mesmo homem diante da família, chamado Miguel; diante do Lago Azul, chamado Elion. O rosto de Terranox. O corpo reconstruído em Valtoria. As imagens se sobrepuseram. — Não escolha entre eles — disse Zarah. — Os dois são você.

O coração perdeu o ritmo da Árvore. Uma batida veio cedo. Outra tarde. O corpo convulsionou. Kaelar avançou. — Feche. — Ele está tentando responder. — Ele está morrendo. — Então ajude sem assumir o lugar dele.

Kaelar pousou a mão na câmara. O ritmo da Árvore diminuiu. Abriu espaço. Uma batida fraca surgiu dentro do peito de Elion. Própria. Irregular. Viva. Na quinta hora, dois ritmos disputavam o corpo. A Árvore batia sob o chão. Elion respondia dentro da câmara. Ora juntos. Ora separados. Zarah manteve a passagem aberta. Cada pulsação dele puxava sangue por seu ferimento. Uma gota caiu de seu cotovelo. A raiz absorveu. Outra. A raiz bebeu de novo. — Sua pressão está caindo — disse XyrOs. — Meça a dele. — Você compromete a referência. — Quanto falta? — Aproximadamente duas horas.

Thalorion ergueu os olhos. — Se a prata continuar aceitando meu corpo como fonte.

A mão dele tremia sobre Horkonys. Zarah olhou para Kaelar. O Guardião havia perdido parte do brilho dos cabelos. O branco agora carregava cinza. Todos pagavam. Elion continuava sem escolher conscientemente nenhum preço. Na sexta hora, o corpo se deslocou. Aconteceu quando os dois corações bateram juntos. A câmara tornou-se transparente. Uma forma de luz ocupava o mesmo espaço de Elion, alguns dedos afastada da carne. O rosto oscilava entre o jovem que Zarah conhecia e traços mais novos, mais frágeis.

Miguel. A forma tentou encaixar-se. O peito encontrou o peito. Os braços, os braços. A cabeça permaneceu fora do alinhamento. — Thalorion.

O Artífice ergueu o rosto. A forma desapareceu. — Viu? — Vi. — A consciência está fora do corpo. — Parte da percepção de si está deslocada.

Kaelar aproximou-se. — Desde quando? — perguntou Zarah.

Os dois homens se calaram. — Desde o templo?

Thalorion olhou para Horkonys. — Talvez desde a travessia de Terranox.

O estômago de Zarah se contraiu. — Ele chegou assim? — Chegou incompleto para este mundo — respondeu o Artífice. — A morte ampliou a falha. — Incompleto?

A palavra saiu cortante. — A presença é inteira. O encaixe, não.

Zarah voltou-se para Elion. A forma luminosa reapareceu. Desta vez, os olhos abriram. Passaram através dela. Procuraram alguma coisa muito distante. A boca formou uma palavra. Mãe. A forma afundou no corpo. O coração disparou. A câmara brilhou em violeta e dourado. Zarah retirou a mão. A palavra permaneceu dentro dela. Ele era Miguel, o nome de sua origem, e também Elion em Valtoria: a mesma pessoa. Mas alguma parte de seu corpo agora respondia primeiro ao mundo que o mantinha vivo. O medo encontrou uma nova forma. E se Valtoria começasse a decidir por ele?

A sétima hora chegou em silêncio. XyrOs anunciou o tempo. Ninguém respondeu. Thalorion mantinha a cabeça baixa. As linhas negras da mão esquerda haviam avançado até os dedos. A prata da direita quase desaparecera. Kaelar permanecia apoiado na parede. As fissuras douradas já não fechavam. Zarah não sentia o braço ferido. A câmara começou a esvaziar. A seiva recuou pelas raízes. Os fios soltaram-se um a um. O do coração. Elion perdeu o pulso. Horkonys contraiu- se. A prata no antebraço escureceu, absorveu a descarga violeta da marca e devolveu uma linha fina ao peito.

O coração bateu. O fio dos pulmões soltou. O peito permaneceu imóvel. Outra linha atravessou Horkonys. Elion inspirou. O fio da coluna recuou. Os dedos se contraíram. O último fio saiu da cabeça. Zarah prendeu a respiração. Elion permaneceu imóvel. O coração continuou. Fraco. Irregular. Seu.

— Está funcionando — sussurrou.

Thalorion retirou as mãos.

— Está contendo.

A câmara abriu. Zarah aproximou-se.

— Posso tocá-lo?

O Artífice assentiu. Ela colocou os dedos sobre a mão direita de Elion. A pele estava morna. A conexão permanecia fechada. O polegar dele moveu-se contra sua palma. Um gesto breve. Zarah esperou. Nada mais veio. Aceitou o gesto sem dar nome. A marca de Propósito brilhou sob a túnica. Violeta-púrpura. Horkonys respondeu. Uma das sete posições recebeu luz. Θ. O mesmo Símbolo. Uma pulsação. Depois outra. No ritmo falho do coração de Elion. As outras seis permaneceram apagadas.

Thalorion afastou as mãos do metal vivo.

— Agora a integração registrou a diretriz.

Zarah manteve os dedos sobre a mão de Elion.

— Qual promessa?

O Artífice olhou para o Símbolo aceso.

— Sustentá-lo sem substituir a vontade dele.

A luz violeta correu pelo antebraço e desapareceu sob a pele. Horkonys ativou a primeira das sete posições.

Capítulo 1 — Três Dias de Silêncio

Cena 4 — A vitória de Therion

Os passos chegaram fora de ordem. Um ritmo pesado arrastava metal pelo corredor. Garras riscavam a pedra entre duas passadas. Articulações mecânicas estalavam com precisão irritante. Therion manteve os olhos sobre a mesa negra. Três sobreviventes. O corredor fora construído para receber comandantes, mensageiros e guardas em fileiras largas. Naquele momento, o vazio caminhava ao lado deles. Umbraxion respirava pelas paredes.

Óleo escuro corria entre as placas de pedra. O cheiro de ferrugem, sangue velho e carne aquecida pelos tubos entrava pela boca e se prendia à língua. Em algum setor abaixo, correntes batiam sem ritmo. Um grito atravessou a tubulação e terminou transformado em estática. A fortaleza perdera a cadência. Toda estrutura adoecia quando suas partes esqueciam a função. Malvros surgiu na entrada.

A armadura havia derretido sobre o lado esquerdo do corpo. Metal negro preenchia os sulcos entre as costelas e alcançava o pescoço. Cada inspiração produzia um ruído úmido dentro da máscara. O braço esquerdo pendia junto ao corpo. Os dedos tremiam. Malvros percebeu o movimento e fechou a mão. Tarde. Therion já contara cada falha. Rakthor entrou atrás dele. Sangue seco endurecia os pelos do pescoço. A orelha direita terminava numa borda mutilada. O Chacal farejou a sala antes de cruzar a entrada, procurando ameaça nos cantos, nas paredes e nos outros dois homens.

Os olhos passaram por Therion. Baixaram. Marnex veio por último. Cinza cobria a vestimenta clara. Um corte atravessava a testa e desaparecia sob o monóculo. As lentes continuavam intactas. O recipiente preso entre suas mãos pulsava. Uma massa de luz violeta e dourada se contorcia dentro do vidro, comprimida entre hastes prateadas. Therion deixou os três aguardarem. O silêncio alterava a respiração dos culpados. Malvros tentava esconder a dor. Rakthor buscava uma saída.

Marnex queria falar. A ordem já começava a retornar.

— Quantos? — perguntou Therion.

Malvros ergueu o rosto.

— A força central—

— Quantos voltaram?

A máscara respirou por ele.

— Vinte e sete Gargyllon capazes de marchar. Nove precisarão de reconstrução. Sete comandantes responderam ao chamado.

Therion deslizou um dedo sobre a mesa. A pedra escura abriu um mapa luminoso de Valtoria. Pontos violetas surgiram nas regiões ocupadas. Muitos piscavam. Outros se apagaram antes de completar a primeira pulsação.

— Quantos comandantes partiram?

A mão funcional de Malvros fechou-se contra o peito.

— Trinta e dois.

Therion tocou o ponto que representava o Templo Submerso. A luz morreu sob a ponta do dedo.

— Continue.

— As três frentes perderam comunicação durante a descarga. Algumas unidades atacaram umas às outras. Outras abandonaram as posições. Os portais colapsaram antes que a retirada fosse concluída.

Rakthor soltou o ar pelo focinho.

— Aquilo atravessou tudo. Pedra, carne, água. A luz entrou nos olhos antes que o garoto abrisse os braços.

Malvros virou-se para ele.

— Você deveria tê-lo impedido.

As garras do Chacal tocaram a mesa.

— Eu atravessei a garota.

A boca de Therion reteve o nome. Zarah. A ferida abrira Elion. O medo fizera o restante.

— E ele continuou — disse Malvros.

Rakthor mostrou os dentes.

— Você também continuou depois que a velha queimou metade do seu corpo.

A mão de Malvros buscou a garganta do Chacal. Parou no meio do caminho. O braço ferido não acompanhou. Rakthor percebeu. O sorriso nasceu devagar. Therion tocou a mesa. A pressão atravessou a câmara. O som das correntes morreu. As garras de Rakthor afundaram contra a pedra. Os joelhos de Malvros cederam alguns centímetros. Os três Símbolos sob as vestes de Therion queimaram. Peso. Frio. Um trovão abafado rolou dentro das paredes.

— A desordem já consumiu homens suficientes — disse ele. — Não a tragam para esta mesa.

Rakthor fechou a boca. Malvros recuou a mão. Therion retirou o dedo. O ar tornou-se leve outra vez. A dor dos Símbolos permaneceu sob a pele. Uma pressão funda junto às costelas. O corpo exigia pagamento por uma ordem de poucos instantes. Guardou o custo atrás da respiração.

— Aethel — disse.

Malvros inclinou a cabeça.

— Caiu.

— A Mestra?

— Morta.

A mão ferida voltou a tremer. Lyandra ainda o queimava.

— Discípulos?

— Os túneis foram selados antes que alcançássemos o centro.

— Quantos escaparam?

Malvros permaneceu em silêncio. A resposta já estava na mão tremendo.

— Aethel caiu — disse Therion. — E continua produzindo resistência.

Malvros abaixou o rosto. Therion voltou-se para Rakthor. O Chacal abriu os braços.

— O templo desapareceu dentro do brilho. Vi corpos virarem cinza no ar. O garoto estava no centro.

— Nome.

Rakthor franziu o focinho.

— Elion.

— Use-o.

— Elion estava no centro.

— E Morgana?

O cheiro de sangue ficou mais forte quando Rakthor levou a mão à orelha mutilada.

— Lutou com eles.

— Feriu você.

— Ela teve ajuda.

— Feriu você.

As garras rasparam a borda da mesa.

— Sim.

— Poderia tê-la matado?

Rakthor moveu a mandíbula.

— O templo estava desabando.

— Poderia?

— Ela atravessou o Vácuo antes do golpe.

— Então não.

O Chacal baixou os olhos. Morgana já aprendera a escolher alguém além da vingança. Uma fissura perigosa. Therion conhecia o poder de uma escolha que contrariava a própria ferida. Kaelar havia cometido a primeira quando o expulsara. Desde então, chamava culpa de compaixão e fraqueza de esperança. Elion recebia as mesmas mentiras. Marnex colocou o recipiente sobre a mesa.

— Trouxe algo mais útil que contagens.

A luz dentro do vidro reagiu à pedra. Violeta e dourado correram pelas hastes, procurando saída. Therion aproximou a mão. A massa luminosa lançou um filamento em sua direção. Os Símbolos sob a túnica arderam. Marnex observou o fenômeno pelo monóculo.

— Ela reconhece sua marca.

— O que é?

— O que sobrou da descarga de Elion depois que atravessou uma âncora de transvalação.

Malvros aproximou-se.

— Energia?

— Dados.

Marnex abriu uma trava. O cheiro de ozônio cortou o ar oleoso de Umbraxion. A luz escapou do recipiente e se abriu sobre a mesa. Chuva. Uma estrada escura. Metal dobrando. Um rosto coberto de sangue. A imagem rompeu-se. Outra ocupou o lugar. Uma mesa iluminada. Vapor subindo de uma bebida. Uma mulher sorria para alguém fora do alcance da projeção. Um homem curvava-se sobre duas crianças. A menor apertava uma criatura de pano contra o peito. Rakthor inclinou o focinho.

— Quem são?

Marnex ajustou uma haste. A imagem perdeu nitidez.

— Vínculos de origem.

— Terranox — disse Therion.

A palavra trouxe quietude à sala. A luz dourada tentou expandir-se. O violeta a comprimiu.

— A descarga atravessou Elion antes de alcançar a âncora — explicou Marnex. — Carregou memória, estrutura biológica e ressonâncias afetivas.

Therion observou a mulher. O sorriso desapareceu com uma interferência. Elion carregava aquela expressão dentro do corpo enquanto combatia em Valtoria. A mãe. O centro anterior. A ordem que existira antes de Kaelar impor outra.

— Estão vivos? — perguntou.

Marnex moveu o monóculo. Quatro pulsações surgiram sobre a mesa. Duas lentas. Duas rápidas.

— A amostra reconhece atividade correspondente nos quatro vínculos.

Rakthor se aproximou até o focinho quase tocar a luz.

— A família vive.

Malvros apoiou a mão na mesa.

— Elion sabe?

— A descarga indica crença de perda — respondeu Marnex. — Culpa recorrente. Imagens do acidente. Ausência interpretada como morte.

Therion tocou uma das pulsações. A criança pequena apareceu outra vez. Os braços apertavam a criatura de pano. A boca formou uma palavra sem som. Miguel. O nome de Terranox tocou os Símbolos de Therion; Elion era o nome de Valtoria. A mesma pessoa sustentada por dois mundos. Kaelar escolhera um jovem que ainda possuía uma porta aberta para outra vida. Talvez acreditasse que o amor dividido criaria equilíbrio. Kaelar ainda confundia divisão com liberdade.

— Podemos atravessar? — perguntou Malvros.

Marnex fechou parcialmente a trava.

— Umbraxion perdeu as âncoras mais precisas. Os arquivos de XyrOs permanecem fora do nosso alcance. Uma passagem direta exigiria coordenadas, energia e ressonância viva.

Rakthor tocou o próprio peito com uma garra.

— Elion.

— Utilizá-lo como passagem consumiria o corpo — disse Marnex. — A abertura duraria pouco. Matéria limitada atravessaria.

— Quanto?

— Um membro. Parte de uma arma. Talvez seu crânio, caso deseje contribuir.

Rakthor rosnou. Marnex continuou olhando para o recipiente.

— Os vínculos familiares oferecem outra possibilidade.

Therion retirou o dedo da pulsação infantil.

— Diga.

— Proximidade biológica. Memórias compartilhadas. Reconhecimento mútuo. Uma âncora pode ser construída dos dois lados.

Malvros aproximou o rosto queimado da projeção.

— Capturamos um deles.

— Quatro — disse Marnex.

A cabeça de Malvros virou.

— Um basta.

— Para abrir uma passagem instável. Quatro oferecem comparação, redundância e material de adaptação.

Rakthor passou a língua pelos dentes.

— E fazem o garoto obedecer.

Therion observou as pulsações. Malvros enxergava alvos. Rakthor, carne amarrada a uma armadilha. Marnex já separava órgãos, células e possibilidades. Nenhum deles compreendia Elion. O jovem escolhera a morte para salvar Zarah. Uma ameaça simples apenas confirmaria o papel que Kaelar lhe entregara: protetor, mártir, centro de todas as perdas. Atacá-lo reforçaria essa convicção. A família oferecia algo melhor. Escolhas incompatíveis.

— Marcharemos contra a Árvore enquanto ele está instável — disse Malvros. — Antes que recupere o controle.

Therion permaneceu diante das quatro pulsações.

— Não.

A respiração mecânica de Malvros falhou por um instante. — Perdemos o templo. Aethel. As três frentes. Cada dia permitirá que— — Cada ataque direto reúne os inimigos ao redor dele. — Precisamos recuperar a iniciativa. — Precisamos mudar a guerra.

Malvros abriu a mão funcional sobre a mesa. — Com vinte e sete Gargyllon?

Therion ergueu os olhos. A pergunta carregava mais que preocupação. Julgamento. Um comandante testando o tamanho da autoridade restante. A provocação exigia uma resposta. Therion poderia esmagá-lo. A pressão dos Símbolos já buscava a garganta de Malvros. O corpo ferido cairia. Rakthor se curvaria. Marnex aguardaria a oportunidade de estudar os restos. A obediência retornaria durante alguns instantes. Depois Umbraxion continuaria sangrando pelos corredores. Controle fingido era outra forma de desordem.

Therion colocou as duas mãos sobre a mesa. — Perdi contato com oito setores de Umbraxion.

Malvros ficou imóvel. Rakthor ergueu o focinho. Marnex abandonou o recipiente por um instante. A verdade ocupou a sala. — Três comandantes deixaram de responder antes da descarga — continuou Therion. — Dois setores inferiores alimentam criaturas fora da rede. As reservas orientais foram tomadas por unidades que já não reconhecem minha voz.

Rakthor olhou para a porta. O medo sempre procurava distância. Therion manteve os olhos nele. — Parte das forças saiu do meu controle.

As palavras rasparam a garganta. Kaelar teria chamado aquilo de humildade. Therion conhecia o nome correto. Exposição. A fraqueza mostrada transformava cada homem diante dele em risco. Também lhes concedia a chance de escolher. Escolhas revelavam lealdade com mais precisão que juramentos. Malvros bateu o punho funcional contra o peito. — Diga quais setores devo recuperar.

A resposta veio rápida. Dor, vergonha e necessidade de continuar útil. Therion voltou-se para Marnex. O cientista acariciava a borda do recipiente com o polegar. A verdade ampliara sua ambição. Rakthor mantinha os olhos na saída. Sobrevivência. Perfeito. Cada um mostrara a própria corrente. — Malvros, reunirá os comandantes que ainda respondem. Escolherá substitutos. Reconstruirá as três frentes com o que restou. — Sob suas ordens? — Sob seu comando.

A máscara inclinou-se. — Autoridade total? — Militar. Cada perda será sua. Cada vitória também.

O braço queimado de Malvros tremeu. Desta vez, ele não o escondeu. — A Legião voltará a marchar. — A Legião que entrou no templo morreu. Construa outra.

Malvros recebeu a frase sem recuar. Therion voltou-se para Marnex. — Os laboratórios selados estão sob sua responsabilidade.

O monóculo brilhou. — Todos? — Todos. — Inclusive as câmaras de adaptação? — Inclusive. — As reservas de Umbrosyx? — Use o necessário.

Marnex respirou pela boca. Fascínio. A desordem dele sempre vestia palavras acadêmicas. — Entregarei resultados. — Entregará caminhos.

Therion olhou para Rakthor. O Chacal já conhecia a ordem antes de ouvi-la. O medo de Morgana havia deixado cheiro suficiente. — Reúna os caçadores dispersos. — Para encontrar os quatro? — Para encontrar passagens, artefatos e qualquer criatura tocada pela descarga. Quero cada rastro entre Valtoria e Terranox.

Rakthor mostrou os dentes. — Morgana conhece portais. — Morgana conhece você.

O sorriso morreu. — Ela virá atrás de mim. — Use isso. — Posso matá-la? — Pode obedecer.

A garra bateu uma vez contra a pedra. Therion esperou. Rakthor curvou a cabeça. — Sim, mestre.

As quatro pulsações continuavam sobre a mesa. Therion aproximou-as. A mulher. O homem. O menino. A menina. Elion surgia entre eles como uma ausência. — Vamos capturá-los — disse Malvros.

Therion observou a reação de Marnex. Um interesse rápido nas crianças. — Vivos — determinou.

Rakthor soltou um ruído baixo. — Mortos serviriam de aviso. — Elion já acredita que morreram. Um aviso repetido ensina nada.

Marnex moveu uma das pulsações rápidas. — Os jovens podem adaptar-se melhor à Umbrosyx. — Nenhuma alteração começará sem minha ordem. — A oportunidade— — Permanecerá viva.

O cientista retirou a mão. Malvros apontou para os dois sinais mais lentos. — Os pais como âncoras. Os irmãos como pressão. — Todos como escolhas — disse Therion.

A imagem da família voltou. Uma mesa. Comida. O homem bagunçando os cabelos do menino. A mulher inclinando-se para a menina. À mesa, tudo escapava ao alinhamento: vozes simultâneas, objetos fora do lugar, migalhas sobre o tecido. Elion chamava aquilo de lar. Talvez paz fosse apenas o nome dado ao caos quando ninguém ainda pagara por ele. Therion moveu os quatro sinais para lados diferentes da mesa. — Elion acredita que pode proteger todos.

Marnex acompanhou o gesto. — Família ou Valtoria.

Therion separou a pulsação da mulher. — Mãe ou Zarah.

O menino foi colocado diante da marca do templo. — Irmão ou aliados.

A menina permaneceu isolada. — Terranox ou o mundo que o reconstruiu.

Malvros inclinou-se. — Cada escolha abre uma perda. — Cada perda mostrará a verdade — disse Therion.

Rakthor soltou uma risada curta. — E quando quebrar?

Therion tocou o ponto que representava Elion. A luz violeta surgiu entre os quatro. — Quando hesitar, verá que a liberdade produz dor.

As paredes de Umbraxion pulsaram. Um grito subiu pelos tubos. Therion manteve a mão sobre a luz. — Kaelar ensina que muitas vontades podem coexistir. Elion acreditará porque ama pessoas que desejam coisas diferentes.

A pulsação da menina tocou seu dedo. — Nós permitiremos que todas peçam ao mesmo tempo.

Marnex sorriu. — Sob pressão suficiente, a mente escolherá uma prioridade. — E condenará as outras — completou Malvros.

Therion fechou os dedos. Os sinais familiares desapareceram dentro de sua mão. — Depois, ofereceremos uma vontade única.

O silêncio que seguiu carregava compreensão desigual. Malvros enxergava vitória. Rakthor, sobrevivência. Marnex, experimento. Therion enxergava paz. A dor terminaria quando ninguém mais pudesse escolher contra o todo. Marnex fechou o recipiente. A luz resistiu às hastes. — Preciso de uma nova emissão para fixar as coordenadas. — Obtenha. — Um artefato de Elion ajudaria. Dados de XyrOs tornariam o cálculo preciso. Outro uso intenso da marca abriria o rastro novamente. — Obtenha os três. — XyrOs permanece protegido. — Toda proteção possui limite.

Rakthor ergueu o focinho. — Morgana.

Therion olhou para a orelha mutilada. — Faça sua história com ela produzir algo além de cicatrizes.

O Chacal apertou a mandíbula. Marnex recolheu o recipiente contra o peito. — Há um risco.

Therion esperou. — O rastro abriu nos dois sentidos.

Malvros virou-se. — Alguém em Terranox pode nos encontrar? — Com tecnologia adequada. Ou sensibilidade suficiente.

A mesa projetou uma linha fina entre Valtoria e os quatro sinais. Ela tremia. Quase invisível. Viva. Therion passou o dedo por ela. A estática percorreu sua mão e alcançou o cotovelo. Do outro lado, a pulsação infantil acelerou.

— Feche depois de localizar a origem — ordenou.

Marnex ajustou o monóculo.

— Manter a abertura permitiria observação.

— Observação também permite retorno.

— Posso controlar o fluxo.

A frase fez Therion erguer os olhos. Marnex percebeu. Baixou o rosto.

— Posso tentar controlar.

Melhor. Therion retirou a mão da linha.

— Encontre-os primeiro.

Marnex fechou a última trava. A luz sumiu.

— Encontrarei a origem biológica exata do forasteiro.

As palavras permaneceram na câmara. Origem. Família. Terranox. O caminho existia. Fraco, instável e caro. Todo caminho podia ser alargado.

— Vão — disse Therion.

Malvros curvou-se. A armadura fundida abriu uma fissura junto às costelas. Sangue escuro desceu pela placa e caiu no chão. Umbraxion absorveu a gota. Rakthor seguiu para o corredor, olhando uma última vez para o recipiente. Marnex permaneceu por um instante.

— Therion.

O uso do nome dispensou o título.

— Elion morreu durante a descarga.

Therion voltou-se para ele.

— E está vivo.

— A assinatura retornou diferente. Parte responde a Valtoria. Parte continua presa a Terranox.

Uma pessoa. Dois nomes. Duas ordens.

— Kaelar o reconstruiu — disse Therion.

— Ou utilizou alguém como molde.

Zarah. A garota ligada ao lago. A mão que Elion escolhera salvar antes de destruir um exército. Marnex tocou o recipiente.

— Quanto mais instável ele se tornar, mais forte será a emissão.

— Então o caminho até a família cresce enquanto ele tenta continuar vivo.

— Sim.

Therion permitiu que a satisfação alcançasse apenas a respiração. A derrota havia destruído soldados, âncoras e territórios. Também arrancara Elion do próprio corpo e exposto o fio que levava até Terranox. Kaelar salvaria o jovem outra vez. Cada reparo apertaria o vínculo com Valtoria. Cada medo abriria o caminho para a família. — Encontre-os — repetiu.

Marnex inclinou a cabeça e partiu. Os passos desapareceram. Therion permaneceu sozinho. O mapa de Valtoria ainda brilhava sobre a mesa. Pontos apagados marcavam posições perdidas. Setores de Umbraxion permaneciam escuros. Comandantes haviam fugido. Criaturas deixavam de obedecer.

A derrota ocupava cada espaço vazio. Therion encostou a palma sobre o mapa. As marcas perdidas desapareceram. Restaram apenas as regiões que ainda respondiam. Menos território. Menos soldados. Menos controle. Uma estrutura menor podia ser reconstruída sem preservar as falhas da anterior. No centro da mesa, uma linha tênue voltou a surgir. Valtoria. Terranox. Quatro pulsações distantes. A luz que destruíra seu exército havia iluminado o caminho para a casa de Elion.