Durante muito tempo, ler ficção foi tratado apenas como entretenimento, passatempo ou fuga temporária da realidade. Entretanto, pesquisas em psicologia cognitiva vêm investigando se acompanhar personagens, conflitos e mundos imaginários também se relaciona ao desenvolvimento de determinadas habilidades mentais e sociais.
Uma das maiores sínteses já realizadas sobre o tema foi publicada em 2024 no Journal of Experimental Psychology: General, periódico da American Psychological Association. A pesquisa reuniu duas meta-análises previamente registradas para avaliar os efeitos e as correlações associados à leitura de ficção.
O que é uma meta-análise?
Uma meta-análise reúne resultados de diversos estudos sobre uma mesma questão. Em vez de depender de apenas um experimento, os pesquisadores analisam conjuntamente diferentes amostras, métodos e medidas.
Essa estratégia ajuda a identificar se determinado efeito permanece consistente quando observado em um conjunto amplo de pesquisas.
No estudo de Wimmer e colaboradores, a primeira análise reuniu 70 experimentos, com 371 medidas de efeito. A segunda reuniu 114 estudos correlacionais, com 559 medidas. Somadas, as duas análises abrangeram 184 pesquisas.
O que os pesquisadores descobriram?
Nos estudos experimentais, a leitura de ficção produziu um benefício cognitivo pequeno, mas estatisticamente significativo.
Os resultados mais consistentes apareceram em duas áreas:
- empatia;
- mentalização, também chamada de teoria da mente.
A teoria da mente é a capacidade de compreender que outras pessoas possuem conhecimentos, emoções, crenças e intenções diferentes das nossas.
Quando a ficção foi comparada com não ler nada ou assistir a uma narrativa, os efeitos encontrados foram maiores do que quando ela foi comparada com a leitura de textos não ficcionais.
O que apareceu nos estudos sobre leitores habituais?
A segunda meta-análise examinou pesquisas que relacionavam a exposição acumulada à ficção com diferentes habilidades cognitivas.
A relação positiva mais forte apareceu nas habilidades verbais. Em seguida, surgiram associações com:
- capacidades cognitivas gerais;
- empatia;
- mentalização;
- compreensão e julgamento de pessoas pertencentes a outros grupos.
Os pesquisadores também encontraram relações mais fortes com a leitura de ficção do que com a exposição a materiais predominantemente não ficcionais.
Pequeno não significa irrelevante
Os efeitos médios encontrados foram pequenos.
Isso significa que a leitura de ficção não transforma automaticamente qualquer pessoa em alguém mais empático, inteligente ou verbalmente habilidoso.
Por outro lado, efeitos pequenos podem ser relevantes quando:
- aparecem de maneira consistente em muitos estudos;
- acumulam-se ao longo de anos;
- estão associados a um hábito frequente;
- envolvem habilidades utilizadas diariamente.
A pesquisa oferece evidências favoráveis à leitura, mas não justifica promessas exageradas.
Por que a ficção pode produzir esses efeitos?
Durante uma narrativa, o leitor precisa reconstruir informações que não aparecem completamente explicadas.
Ele tenta compreender:
- o que uma personagem deseja;
- por que ela esconde determinada informação;
- como interpreta os acontecimentos;
- o que sente, embora não consiga dizer;
- quais serão as consequências de suas escolhas.
Esse processo exige inferência.
O leitor não recebe a mente da personagem pronta. Precisa interpretá-la a partir de falas, gestos, silêncios, lembranças e ações.
A ficção pode, portanto, funcionar como uma espécie de simulação social: um espaço protegido para acompanhar conflitos e perspectivas diferentes das nossas.
E onde entra a fantasia?
A meta-análise avaliou a ficção como categoria ampla. Ela não demonstrou que a fantasia produz benefícios maiores do que todos os outros gêneros.
Essa distinção é importante para não atribuir ao estudo uma conclusão que ele não apresentou.
Ainda assim, a fantasia oferece condições interessantes para o exercício da imaginação e da perspectiva.
O leitor pode precisar compreender:
- povos com valores diferentes dos nossos;
- sociedades organizadas por outras regras;
- criaturas com modos particulares de consciência;
- forças mágicas com custos e consequências;
- conflitos morais apresentados por meio de símbolos.
Uma boa história fantástica não pede apenas que o leitor imagine o impossível. Ela pede que encontre motivações, sentimentos e dilemas humanos dentro do impossível.
Aplicações práticas para leitores
Os resultados reforçam a importância do hábito, e não apenas de uma experiência isolada.
Algumas práticas podem tornar a leitura mais reflexiva:
- observar o que cada personagem sabe em determinado momento;
- distinguir intenção, ação e consequência;
- imaginar como outra personagem interpretaria a mesma situação;
- perceber emoções sugeridas, mas não declaradas;
- alternar autores, culturas e estilos narrativos;
- conversar sobre o livro depois da leitura.
Essas práticas não precisam transformar a leitura em uma prova. Elas apenas ajudam o leitor a perceber camadas que poderiam passar despercebidas.
Aplicações práticas para escritores
Para o escritor, a pesquisa reforça a importância de personagens com vida interior.
Uma personagem não deve existir apenas para transportar informações ou cumprir uma função na trama.
Ela se torna mais envolvente quando apresenta:
- desejos claros;
- contradições;
- crenças particulares;
- pontos cegos;
- conflitos internos;
- escolhas com consequências;
- informações que não consegue admitir nem para si mesma.
Quando tudo é explicado diretamente, o leitor tem pouco a interpretar. Quando o texto oferece indícios coerentes, ele participa da construção da personagem.
Limitações que precisam ser respeitadas
Os resultados não provam que toda leitura de ficção produz os mesmos efeitos.
A experiência pode variar conforme:
- qualidade e complexidade do texto;
- envolvimento do leitor;
- frequência de leitura;
- repertório anterior;
- idade;
- contexto cultural;
- tipo de avaliação utilizada.
Além disso, parte das evidências é correlacional. Pessoas com maior habilidade verbal ou interesse pelas emoções humanas também podem procurar mais livros de ficção.
A relação provavelmente funciona em mais de uma direção.
O que podemos concluir?
A leitura de ficção não é uma fórmula mágica para inteligência ou empatia.
Entretanto, a síntese de 184 estudos oferece evidências robustas de uma relação positiva, ainda que pequena, entre o contato com a ficção e habilidades como empatia, mentalização, cognição geral e domínio verbal.
Entrar em mundos inventados pode ser também uma maneira silenciosa de praticar a compreensão do mundo real.
Mundos imaginários não nos afastam necessariamente da experiência humana. Em algumas circunstâncias, eles podem nos ensinar a observá-la por outros olhos.
Referência
WIMMER, Lena; CURRIE, Gregory; FRIEND, Stacie; WITTWER, Jörg; FERGUSON, Heather J. Cognitive effects and correlates of reading fiction: Two preregistered multilevel meta-analyses. Journal of Experimental Psychology: General, v. 153, n. 6, p. 1464–1488, 2024. DOI: 10.1037/xge0001583.

